Fernando Scheller

Encontrei-me em seu olhar

7 / julho / 2016

O amor da mais linda mulher que existe é franzino, alto demais, de costas arqueadas, cdf de carteirinha, não sabe qual é a camiseta da moda, tem barba rala e nome de velho — quem, afinal, se chama Inácio hoje em dia? Ela poderia ter o homem que quisesse — rico, bonito e bem nascido —, mas não pôde evitar: era a mim que amava.

Eu esperei muito, tantas noites de medo e de perguntas, de dor pelas ligações nunca retornadas, louco para saber por onde ela andava. Aceitei ouvir frases frias de seus lábios nos momentos em que seu olhar, contraditoriamente, me chamava para perto. Aqueles olhos verdes. Esta noite, eu me daria a última chance de provar que estava certo.

Se contasse para alguém que tinha certeza, quase absoluta, de que Baby me amava, apesar de ter me rejeitado várias vezes, provavelmente seria chamado de doido e masoquista. Eu havia me encontrado naquele olhar. Era preciso ter a coragem de saber se tanto sentimento, em alguma hora, transbordaria. Se o trem desgovernado do amor sairia da estação.

Ou talvez estivesse apenas insistindo, havia anos, em uma mentira na qual gostava de acreditar. Um apaixonado dedicado às próprias alucinações. Um jeito de abreviar e, ao mesmo tempo, prolongar esse sofrimento que me alimentava. Que me fazia sonhar alto e não sair do lugar. Esse misto de felicidade infinita e de tristeza profunda.

Não me lembro de ter visto Baby o ano inteiro. Evitei-a, convencido por meu lado racional. Lá no fundo, achava que um dia ela faria o caminho de volta até mim. A festa de hoje seria em um lugar muito longe, eu teria de ficar até o fim para voltar pela manhã para casa, de ônibus. Caso estivesse enganado em minha convicção, todo mundo teria tempo de sobra para testemunhar meu ridículo ato de súplica. Fazia um calor infernal, mas sentia calafrios.

Havia crescido quinze centímetros no ano em que completei dezenove anos. Andava meio corcunda, tentava me equilibrar. Buscava me acostumar a tantas mudanças em tão pouco tempo. Havia esperado por Baby, sempre por ela. Sentia que meus hormônios estavam a ponto de explodir, escapar do corpo.

Meu peito queimou como uma estrela furiosa quando a vi, assim que a porta da casa se abriu. Baby me via do jeito que só ela era capaz. Segui aquele olhar, que me atraía e me enviava lampejos de dor, pedindo que eu chegasse mais perto. Segui os sinais, por instinto, e a música alta se tornou um zumbido baixinho lá no fundo. Perdi a visão periférica; tudo o mais era escuro, Baby emanava o único feixe de luz.

Naquele quase silêncio, só nós existíamos. O mundo inteiro, incluindo aquela festa de faculdade, fora dragado por uma fenda gigante que se abrira sob os nossos pés. Éramos os únicos sobreviventes na Terra. Só havia o agora, sem nada a dizer, só a vida tomando conta. O beijo que eu praticara por anos acontecia agora. Era natural, perfeito, inevitável. Naquele momento, ela era minha. E eu finalmente começava a viver.

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