Clarice Freire

A garota do tanque de areia

27 / julho / 2016

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Tarde dessas fui olhar a vista de uma varanda nova. Um prédio não tão alto quanto o que moro hoje, praticamente nas nuvens. Ele é daqueles que dá de cara para mais prédios, pois está cercado por edifícios e acompanhado de arranha-céus. Meu caminho até a tal varanda foi a pé, o que dá uma dimensão completamente diferente da cidade. Quem anda a pé descobre casas, lojas, pessoas e lugares invisíveis aos carros, mesmo que, dirigindo, se passe por ali todos os dias. Minha sensação ao andar a pé pelo Recife é a de conhecer outra cidade, meio macromicroscópica.

Lá fui eu. Concreto, semáforos, buzinas, gritos, lojas, galetos; portaria, elevador, concreto, porta, varanda. E voltamos ao ponto inicial da minha história: a vista.

Olhando ao redor, espremido entre três prédios, estava um tanque de areia, na “área de lazer”. Visto de cima, da tal varanda, o tanque de areia para crianças mais parecia uma caixinha para gatos colocada no cantinho da área de serviço.

Dentro dela, sentada e só com — provavelmente — um balde, estava uma garotinha. Ao seu lado, uma bola cor-de-rosa esquecida e parada. Entre tanto concreto branco e cinza, a cor da bola gritava aos olhos. Eu me estiquei para procurar os amigos da menina, a mãe, alguém.

Ninguém.

Eram apenas a bola, ela e seu balde. Mesmo ali de longe eu podia ouvir o silêncio. Fiquei meio hipnotizada por aquela menina. Acho que, de certa forma, vi a mim mesma, com algumas diferenças.

Sempre fui uma garotinha introspectiva, quando pequena. Confesso que tive meus avanços na timidez. Apesar de a constituição contemplativa estar na base dos meus dias, gosto de falar. Amigos dirão que bastante. Mas o silêncio é meio de sobrevivência, uma necessidade, que talvez tenha começado em mim na idade da menina. Até os oito anos, eu era filha única e adorava brincar na areia, como a garota que olhava de longe. Construía meus reinos e castelos, planejava fugas e, quando cansada, destruía tudo com um tapa. Alto poder.

A imagem da menina do tanque de areia, porém, me sufocou, deu uma sensação de solidão triste, bem diferente daquela minha de ontem e hoje. Observando-a, senti pena, certa comoção, uma vontade de descer e colocá-la para ver o mundo. Imaginei-a correndo num parque verde, florido, em liberdade. Não ali. A bola parada pedia um campo verde, ora.

— Que bobagem, sua louca! Essa menina, muito provavelmente, viu mais do mundo que você. Pode ter viajado por milhares de países e já estar cansada de parques verdes da Europa e da Disney. Talvez esteja aliviada por estar dez minutinhos só na areia. Em casa, existe agora uma multidão de irmãos fazendo barulho — disse minha razão, que também é imaginativa.

— Verdade — respondi a ela.

Minha compaixão pela garota do tanque de areia, no entanto, não se foi. Voltei para minha infância. Não posso negar que também fui uma “menina de prédio”, mas tive a sorte de ter avós no interior, o que dividia bem as realidades entre concreto e mato. Ainda subi em muitas árvores, colhi fruta do pé, fui para o meio da feira, andei de bicicleta pela cidade — especialmente ladeira abaixo —, andei descalça, colecionei cascas abandonadas por cigarras nas árvores, sujei-me de lama ou rolei por tapetes molhados em dias de faxina, fui ver o circo, senti o cheirinho do bolo saindo do forno, almocei no sofá assistindo a Chaves, brinquei de cabra-cega na fazenda, assei milho na fogueira. E, no meio de tudo isso, quando voltava para a cidade, andava de patins, dava tempo para a minha amada solidão entre meus papéis e lápis de cor. A cidade era um “também”, e não “só o que se tem”.

Acho que isso me fez bem.

Não conheço a garota do tanque de areia. Talvez ela tenha, como imaginei antes, mais de tudo isso do que eu. Talvez. Mas aquela claustrofobia solitária daquela cena me fez pensar nas infâncias encaixotadas, de ar-condicionado, shopping e só. Fiquei pensando se aquela areia não seria artificial e lembrei quanto é bom colocar o pé no chão. Pode ser que a areia não seja artificial, mas naquele contexto, para mim, ela se torna sintética. Minha infância não é superior à de ninguém; longe de mim pensar assim. Contudo, olhando ao redor e vendo as ruas com tudo, a garota do tanque de areia não parecia ter tanto assim.

As aparências sempre enganam, eu sei. Talvez outros muitos tenham me olhado sozinha pelos cantos quando eu era menina e sentiram compaixão, quando na verdade eu estava satisfeitíssima. Todo o Universo cabia dentro dos meus olhos e só eu enxergava; amava saborear aquela privacidade dos meus sonhos e de minhas fantasias fantásticas. O mundo que não se toca é maravilhoso, mas o tangível também pede tato, sujeira, oxigênio, espaço e os pés, de vez em quando, dançando podres de lama. E um mundo alimenta o outro.

 

O universo é enorme, tão vasto.

De tão belos escuros,

onde a Lua clareia.

De tão lindas manhãs,

quando o Sol incendeia.

O mundo é tão grande,

tem tanto céu.

Pra que gaiola, pra que cadeia?

O mundo tem tanto chão

pra pisar no seguro

de um tanque de areia.

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Comentários

2 Respostas para “A garota do tanque de areia

  1. Clarice, cada momento de leitura dos seus textos e versos são momentos inspiradores! Revigorantes! Um Xero da Jecilene

  2. Como sempre seus textos nos acalma a alma,abraços.

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