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Uma história em dois atos

16 / junho / 2016

Por Julia Wähmann*

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Eu sabia basicamente duas coisas a respeito de Destinos e fúrias, livro da americana Lauren Groff, quando recebi meu exemplar: que o assunto era casamento e que Barack Obama o havia eleito entre seus preferidos de 2015. A declaração do presidente dos Estados Unidos, por si só, dispensaria quaisquer outras apresentações ou artigos sobre a obra em questão. Não me atreveria a discordar de Obama. No entanto, terminei a leitura desconfiada de que reduzir o livro ao espectro do casamento seria cair na armadilha de condená-lo a um rótulo que, ainda que rico, soa estreito.

A diferença entre comédia e tragédia não passa de um truque, e depende exclusivamente do leitor: esta é a lição que Lotto aprende numa aula de literatura, no mesmo dia em que é introduzido à obra de William Shakespeare. É preciso um gigante para despertar outro, e é a partir desse encontro que Lancelot Satterwhite — apelidado Lotto por sua tia Sallie logo após seu nascimento — começa a dar seus primeiros passos no mundo do teatro.

untitledJovem, rico e dono de um magnetismo proporcional aos seus quase dois metros de altura, Lotto torna-se ator ao mesmo tempo que sua fama de conquistador se espalha. A rotatividade de mulheres em sua cama — ou nas dependências da universidade — tem fim quando, numa festa, Lotto se apaixona por Mathilde, uma garota calada, sem amigos, de beleza dúbia e porte de manequim. Em poucas semanas os dois se casam às escondidas, Lotto é deserdado pela mãe, a viúva Antoinette que administra a fortuna da família na Flórida, e se muda com Mathilde para um apartamento subterrâneo em Manhattan, Nova York, cenário de festas que fariam Jay Gatsby se revirar no túmulo.

A primeira das duas partes do livro de Groff é centrada na figura de Lotto, que de ator com poucos trabalhos passa a dramaturgo, impulsionado pela mulher, que assume os bastidores da cena. Lotto alcança o sucesso e o prestígio que todos sempre esperaram dele, e ainda que seu ofício não o permita mais interpretar grandes personagens, é ele quem está constantemente sob os holofotes. Seu êxito se expande de forma ascendente, assim como o apetite sexual por sua mulher, a quem se mantém fiel.

O casamento de Lotto e Mathilde é mais erótico que a maioria das ficções comerciais assumidamente safadas. Ambos parecem encarnar com perfeição os papéis a que o casamento tradicionalmente designa aos gêneros também tradicionalmente reconhecidos. Mathilde está sempre pronta para o sexo, para cuidar da casa, para permanecer nas coxias do teatro, aquele limbo escuro entre o palco e as engrenagens e os camarins das casas de espetáculos, tudo para que Lotto continue se sentindo “exuberante”.

Há buracos, entretanto. Algo no desenrolar dos fatos deixa lacunas na história do casal, e cresce no leitor uma desconfiança a respeito dos protagonistas. Como se a fábula bem-sucedida ocultasse certas peças, como se não fosse possível tamanha docilidade e conformidade de Mathilde, como se a sensibilidade de Lotto fosse imune à vida de sua própria companheira.

A história de Lotto e Mathilde é tão envolvente que por vezes esqueci que era fruto da mente e das maquinações de uma ficcionista. Há uns anos Ian McEwan declarou, numa conversa com Jennifer Egan e Arthur Dapieve, na Flip, que manipular o leitor era “o maior prazer” de sua vida. O escritor inglês não quis dizer, contudo, que o fazia gratuitamente. Na segunda parte de seu livro, Lauren Groff reafirma essa máxima, ao mudar o eixo da narrativa e revelar a trajetória do casal pela perspectiva de Mathilde. A autora então confronta as convicções do leitor a respeito da vida conjugal de ambos.

Aos poucos entendemos que é Mathilde quem viabiliza o sucesso estrondoso do marido, se valendo de práticas muitas vezes pouco louváveis; é Mathilde quem, em tempos de vacas magras, encontra os meios financeiros para ter o mínimo em casa. As armas de Mathilde são as mesmas das quais se utilizam escritores de ficção. Ela domina todas as engrenagens escondidas pelos cenários e cortinas dos teatros, sabe a hora exata de entrar e sair de cena, e arquiteta seus movimentos com precisão, sem deixar rastros. Conhece seus pares profundamente, e os guia como se desse vida a marionetes.

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Se o que aparece em primeiro plano são Lotto, sua luz e a instituição do casamento como uma espécie de intimidação para a mulher, o que se descortina com a versão de Mathilde é uma subversão de regras que ela molda na penumbra. Se na primeira parte do livro Mathilde passa a impressão de fraca, na segunda é Lotto quem parece bobo. Se de um lado o herói é o homem, de outro a heroína é a mulher. Porém, mais do que resignificar todo o primeiro capítulo ou apenas esclarecer o que parecia incompleto, a segunda parte do livro vem para que possamos ver como são feitas as escolhas dos personagens e da autora, e como todos eles — ainda que sejam um só, em última instância – estão empenhados no exercício de manipulação do qual diversos autores são adeptos.

Lotto pode ter enxergado Mathilde como a criatura mais perfeita, pura e boa que já conheceu, sem se dar conta dos segredos sombrios da mulher e sem perceber como seu sucesso foi forjado por ela. Ou ele pode ter escolhido ver e registrar a leveza. Pode, ainda, ter se aproveitado das estruturas culturais e sociais que autorizam o homem a colher os louros sem reconhecer o mérito de suas esposas. O livro pode ser lido como uma narrativa sobre as ambiguidades, as injustiças e as rachaduras do casamento numa cultura machista e, sem dúvida, cumpre esse papel com contundência. Mas também pode falar de estratégias e jogos narrativos que surpreendem e desviam o rumo das histórias. Comédia ou tragédia, uma coisa é certa: quem ri por último é Lauren Groff.

>> Leia um trecho de Destinos e fúrias

 

 

Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press). Em 2016 publica Cravos (Record, no prelo).

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