Fernando Scheller

Iemanjá disse não

23 / junho / 2016

Vista do Arpoador

Vista do Arpoador, de Rafael Mussel

O ano-novo começara havia seis minutos quando os aparelhos apitaram e os batimentos cardíacos do meu melhor amigo viraram traço. Inerte, mas ainda com os olhos abertos, ele não largou minha mão ao partir. Tive de fazer força para me soltar e, com cuidado, mover suas pálpebras e esconder sua expressão de medo e espanto.

Selma não aguentaria. Essa mulher envelhecera tanto nos últimos dois anos que parecia ter ficado vazia, oca. Seu rosto fora puxado em várias direções pelo sofrimento. Ela agora lembrava uma pintura expressionista ou uma instalação abstrata. Eu precisava manter a calma, organizar tudo.

Enfrentei, no centro funerário, o calor do primeiro dia do ano. Um homem queimara cem por cento do corpo com fogos de artifício, outro morrera atropelado, a adolescente não sobrevivera à primeira experiência com drogas pesadas. E, sim, o velho que estava em coma havia anos resolvera desistir do mundo no mais inconveniente dos momentos.

Tínhamos pressa, Selma e eu. Olavo se tornara radioativo, as pintas de dálmata em seu corpo não eram nada adoráveis. Dava até para entender o receio dos enfermeiros. Ele virara um esqueleto humano cujo suor exalava cheiro de carne podre. Só amando muito para aguentar. Quando vi meu reflexo no espelho, percebi que também perdera peso, meu cabelo estava enorme. Parecia um palhaço faminto.

Foi preciso pagar um extra para que o colocassem no saco preto, como lixo tóxico. Selma perguntou se era mesmo necessário, queria ainda vê-lo, despedir-se mais uma vez. Não, era melhor fazer isso agora — não sei como reuni coragem para dizer essas coisas a ela. O último adeus da mãe, zíper fechado.

Embalado no saco preto, dentro do caixão, a sete palmos embaixo da terra. Cemitério central, enterro às duas e meia da tarde de 1o de janeiro. Pouca gente compareceu. Tavinho era quase tão temido quanto as crianças radioativas de Chernobyl. Ninguém queria chegar perto. O medo é o maior inimigo da compaixão.

Exigi do médico pílulas para pôr Selma para dormir. Levei-a para casa, a receita dizia uma pílula para induzir oito horas de sono. Dei-lhe logo três. Ela bem que podia perder uns dias dormindo. Vasculhei o resto da casa, tirei todos os medicamentos e levei comigo o frasco que trouxera. Só depois me dei conta de que havia deixado facas afiadas na cozinha. Além disso, se ela quisesse acabar com a própria vida, poderia simplesmente se atirar da janela.

Voltei para casa de ônibus, não tinha como pagar táxi. A praia estava suja, Iemanjá devolvera todos os presentes vagabundos que lhe deram na noite anterior. Os garis já haviam revirado a areia, mas tudo ainda fedia a perfume barato e mijo.

Era fim de tarde, o tempo estava fechado, chuviscava e o Arpoador estava quase vazio. Então me joguei das pedras direto na água, algo que sempre quisera fazer. Ao perder o medo de morrer, a gente ganha coragem para tudo. Não nadei, não tentei boiar, entreguei-me como uma oferenda atrasada.

Queria virar uma pedra pequenina, perdida no fundo do mar. Mas as ondas me jogaram, em uma questão de segundos, de volta à praia. Eu pertencia à mesma categoria dos vidros de alfazema e das palmas murchas. Iemanjá também me cuspira.

Não era hora, como Tavinho bem me avisara. Uns dias atrás, naquele meio do caminho de vida e morte em que ele se encontrava, havia reunido forças para, olhando nos meus olhos, proferir uma sentença. O tipo de verdade que só os moribundos são capazes de captar:

— Você vai morrer quando for um homem velho. Muito velho.

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Comentários

2 Respostas para “Iemanjá disse não

  1. Muito bom! Me transportei ao sentimento de “oferenda atrasada”!

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