Clarice Freire

Desconfio das noites quentes

22 / junho / 2016

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Desconfio de todas as noites que chegam quentes.

“As noites não nasceram para ser quentes!”, reclama meu desejo de cobertor.

Sou dessas pessoas que não vivem sem cobertor. Aninho-me feliz num alento macio, uma coisa de querer proteção. Especialmente quando anoitece. E cobertor precisa de frio. Será isso fraqueza?

Mas hei de reconhecer também que as noites quentes têm a sua beleza. Um tal charme desinteressado, suas blusinhas de alça, as sandálias rasteiras e um jeito preguiçoso de caminhar na beira do cais, como quem não tem medo nenhum do vento.

Desconfio de quem não teme a ventania.
A da beira do cais, melada de maresia, descabela qualquer dedicação em manter os fios em ordem.
Desconfio. Mas também faço confissões, cada vez mais raras. E caras.

Lá vai uma:
no final das contas, já tive milhares de noites quentes.
Quentes e claras.

Algumas tão claras, acordadas e despertas que se confundiam com o dia. Nelas tive certeza de que a hora de a lua nascer, crescer e virar moça já havia passado — e muito. Mas era puro engano, tolice — o dia estava era longe de chegar.

Era a mais alta noite quem estava. A experiência criou em mim intimidade e hoje sei bem. A noite fala num tom de voz bastante singular, conhecido meu.

Macio, misterioso, cheio de enigmas, como quem conta um segredo. Mesmo quando fala alto.

Não há quem discorde. Seu tom de voz é único e ponto.

Desconfio das noites que chegam quentes porque têm esse ar atrevido, desinibido, despreocupado. Que tipo de gente anda sem um peso nas costas?

“Mas a noite não é gente!”, reclama meu desejo de corretor.

Acho que a noite é a gente, então.
É. Eu sou a noite. A noite sou eu.
Por isso desconfio de mim.
Vivo em desconfiança,
entendeu?

Me prendo, me solto,
pago a fiança.
Mas assim, veja bem:
noites frias, quentes,
de silêncio ou de dança,
quem não tem?

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