Bastidores

A vida que passamos juntos

29 / junho / 2016

Por Ulisses Teixeira*

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Eu tenho bastante sorte por ter três pais.

Deixe-me explicar melhor. Para falar a verdade, é bem simples. Provavelmente muitos tiveram a mesma experiência que eu, ou talvez uma similar. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu era um bebê. Quase dois anos depois, minha mãe se casou novamente, e ela também teve a sorte de encontrar um cara legal e decente com quem é casada até hoje. Meu pai não encontrou tão cedo a sua outra “metade da laranja”, de forma que ninguém teve para mim um lugar de “mãe” — além da minha própria, é claro. O cara com quem minha mãe se casou me criou, me ensinou e me influenciou de maneiras que só um verdadeiro pai faria. É por isso que ele merece esse título. (E é por isso também que, neste texto, eu só vou me referir a ele como “pai”, nunca padrasto. Sei que isso pode ser um pouco confuso para alguns de vocês, e peço desculpas desde já.)

O que isso tudo tem a ver com F de falcão? Bem, Helen Macdonald, a autora dessa obra-prima (e, acreditem, não uso essa palavra de forma gratuita), não tem mais o pai. Ele faleceu após um enfarto, daqueles que acontecem sem mais nem menos, sem aviso, sem dar tempo para você se preparar para o pior. Isso, é claro, é o suficiente para deixar qualquer um devastado. Com a autora, não foi diferente. No período de depressão que se seguiu à morte do pai, Macdonald revela em detalhes o que perdeu enquanto não conseguia superar o luto: oportunidades profissionais, dinheiro e até mesmo um relacionamento. Para vencer a inércia emocional, Helen resolve voltar a explorar um antigo hobby que compartilhava com o pai: a falcoaria.

A falcoaria é a antiga arte de criar e treinar certas aves de rapina para a caça. Devido ao seu alto custo, era praticamente restrita aos nobres no mundo antigo e medieval. Apesar do nome, o esporte não lida apenas com falcões; podem ser usados também gaviões, corujas e açores. De fato, é este último que Macdonald escolhe para retomar a prática. Desnecessário dizer que criar um falcão não é como criar um cachorrinho; não basta colocar um jornal no canto da área de serviço e levar para passear duas vezes por dia. Não, criar um falcão é um desafio. E criar um açor é um desafio ainda maior. Um açor é uma ave de rapina de fato, um animal que pode chegar a ter sessenta centímetros, que habita a copa alta das árvores e que vê o mundo literalmente de cima. Um açor não obedece cegamente a ordens, e até mesmo a autora diz que, em determinados momentos, quando a ave decide permanecer em uma árvore, é o treinador que é obrigado a ficar esperando por ela pelas horas que forem necessárias. A falcoaria é, acima de tudo, um exercício de persistência e paciência.

De certa forma, vencer o luto é a mesma coisa.

capa_F de Falcao_frente_Tudo que Macdonald escreveu em F de falcão me encantou. Sou fascinado por falcoaria há muitos anos, apesar de nunca ter tido a oportunidade de praticá-la. Então, esse livro para mim foi um prazer — e mais uma vez digo que sou sortudo por ter tido a oportunidade de trabalhar nele. Porém, o que me marcou de forma mais profunda talvez tenha sido as descrições que ela faz do pai e de como sente a falta dele. Eu não sei o que é perder um pai, todos os meus três estão bem. No entanto, durante o final da minha adolescência e início da minha vida adulta, um dos meus pais teve câncer. Pela terceira vez. Foi um processo longo, difícil e doloroso, cujas consequências são sentidas até hoje. Eu tentei me manter forte, para dar apoio a ele e a todos que precisavam de ajuda. Eu me preparei mais de uma vez para ver meu pai morrer. Mas a verdade é que, no fundo, você nunca está preparado para isso. É impossível se preparar para viver sem alguém que você ama.

Eu poderia dizer que agora que estou nos meus trinta anos, entendo melhor meus sentimentos e concluir que eu não tinha maturidade para encarar aquela situação e responsabilidade tão cedo na vida. Mas eu estaria mentindo. Ainda sou completamente imaturo e tenho bastante dificuldade de processar tudo que passei. No entanto, vejo o meu pai, agora saudável, mas ainda tendo que viver com algumas consequências da doença, e penso nele como um verdadeiro herói. Vejo minha mãe, que aguentou o peso do mundo nas costas sem reclamar nem um pouco, e sonho em ser forte como ela um dia. E vejo a mim mesmo, uma bagunça completa de sentimentos, tentando lidar com tudo isso até hoje.

Se você perguntar a qualquer um que me conheça, seja por alguns minutos, seja por uma vida inteira, essa pessoa vai dizer: o Ulisses é um imbecil. E ela tem razão. Eu tento a todo custo não demonstrar sentimentos. Contudo, Helen Macdonald me mostrou que a confusão que sinto é normal. Ela me mostrou que eu posso ser vulnerável. Que o luto é um processo difícil, mas que também é possível se recuperar dele. E que, quando o inevitável acontecer a um ente querido, nós sempre teremos a vida que passamos juntos.

Ulisses Teixeira, eleito por sete anos seguidos “o sorriso mais bonito do Méier”, abandonou cedo demais a carreira de modelo para se dedicar ao mercado editorial.

P.S.: No intuito de homenagear a rainha Xuxa, Ulisses Teixeira sugeriu o título A de açor, B de baixinho para o livro de Helen Macdonald. Após uma resposta violenta da equipe, Ulisses se recupera bem.

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Comentários

7 Respostas para “A vida que passamos juntos

  1. Sei lá, chorei bastante agora. Ao ler que pessoas tbm passam pelo mesmo que eu.
    Como fáco para ler ( A vida que passamos juntos).

  2. Oi, Islainy! Muita força! O livro citado no texto é “F de falcão”. Você pode encontrá-lo nas principais livrarias.

  3. Apesar do texto ser muito bacana, pelo que entendi o autor não passou pela situação do luto, é isso? Desculpa, não quero minimizar sua situação que sem dúvida é bem difícil, mas luto é luto. Sofrer ao lado de quem se ama já é muito difícil, porém o luto além da dor dos últimos momentos ainda carrega consigo a questão da ausência completa da pessoa. Não dá pra se falar de perda sem ter perdido. Quase morte, é dor, mas não é morte, nem de perto! Apesar desse equívoco, creio valer a pena a sugestão do livro de Helen Macdonald.

  4. Parabéns Ulisses pelo lindo texto! Consegue expor de forma simples e tocante, com uma breve analogia, à sua própria experiência. Estou lendo o livro e amando! Confesso que nunca li nada a respeito de falcoaria e eu mesma sofri muito também pelo luto de meus pais… Sucesso!!!

  5. Oi, Andrea! Sim, autora perdeu o pai de repente. A partir da morte dele, ela voltou a se reaproximar da falcoaria.

  6. Parabens Ulisses, mas é muita emoção pro meu velho coração.

  7. Texto sincero e tocante!!! Realmente F de Falcão é uma obra prima! É daquelas obras que nos faz repensar a vida, causa um estardalhaço interno
    por chegar no mais recôndito dos sentimentos… Uma lição de vida, “sessões de terapia”… De fato, EMOCIONANTE! Parabéns Equipe Intrínseca por tê-la publicado!

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