Bastidores

A rainha da Teoria da Colher

21 / junho / 2016

Por Mariana Calil*

colheres_blog

Enrolei algumas semanas para entregar este texto.

Eu sei, é muito feio isso, afinal, é trabalho. Mas também era esse o problema: como eu ia falar de Alucinadamente feliz de forma profissional, sem cair no piegas de me expor no blog da empresa?

Tentei lembrar de coisas que tivessem acontecido durante a preparação do livro, fora os eventuais chafarizes nasais de café com uma piada inesperada. Foram necessárias algumas pesquisas acerca de uma ou outra questão de cultura americana e também sobre alguns distúrbios e manias. Por exemplo, ficamos na dúvida entre usar “dermatotilexomania” ou “dermatilomania” (a quem possa interessar: obsessão por puxar ou arrancar a própria pele). Optamos por usar o segunda, por ter a grafia mais simples e um número de resultados satisfatório entre publicações acadêmicas e leigas, mas os dois estão certos. Mas nada disso seria capaz de explicar POR QUE o livro me empolgou tanto.

Então vamos à própria Jenny Lawson e a incrível Teoria da Colher. Funciona assim: todo dia, você acorda e ganha UM MONTE DE COLHERES. Parece um número infinito. Aí você levanta, e lá se foi uma colher. Toma banho, e foi outra. Escova os dentes, e mais outra. É como se o dia fosse um freezer de sorveteria abarrotado e você pudesse aproveitar tudo que está nele — só que toda vez que experimentasse um sabor com uma colher, ela teria que ser descartada. A melhor parte é que não é necessário economizar muito; um novo carregamento de colheres chega a cada manhã.

Capa_AlucinadamenteFeliz_GOu não. Porque é essa a grande questão: quando ficam doentes ou sofrem, as pessoas não recebem o mesmo número de colheres que receberiam num dia em que estivessem saudáveis. Quem tem doenças crônicas recebe menos colheres que quem não tem. E se você sofrer de um transtorno emocional… Talvez possa acordar e descobrir que só tem as colheres que sobraram do dia anterior, mesmo.

A teoria é de uma amiga dela, Christine Miserandino, mas é claro que Jenny precisava explicar o conceito no livro. Porque se essa teoria fosse entrar numa enciclopédia, a ilustração poderia ser: Jenny vestida de canguru junto com uma horda deles na Austrália; Jenny fazendo rodeios com um guaxinim empalhado na cozinha; as listas de suprimentos que ela fez para o caso de um apocalipse zumbi. Veja bem, não basta ter depressão, transtorno de ansiedade grave, distúrbio de automutilação e mais uma série de problemas, Jenny também tem artrite reumatoide e doenças autoimunes. Ou seja, tem dias que ela acorda e percebe que não tem mais que meia dúzia de colheres.

E, para mim, é isso que faz dela a rainha soberana da Teoria da Colher. Porque provavelmente nós recebemos algumas dezenas de colheres todas as manhãs, fora as que sobraram do dia anterior, e nos damos por satisfeitos com colheradinhas de baunilha, limão e de vez em quando chocolate. É clássico e repetitivo, mas esses sabores não vão decepcionar. Já Jenny, mesmo com suas poucas colherinhas, vai em busca das misturas mais alucinadas e memoráveis. Sorvete de biscoito para cachorro. Sorvete de cabeça de urso empalhada. Sorvete de pé humano com queijo.

(Juro que você vai entender as referências se ler o livro.)

Foi aí que a leitura me deu uma colher extra. Não uma colher comum, que pode ser usada em qualquer dia, mas uma colher ornamentada e vitalícia que eu posso pendurar na minha parede e dizer para mim mesma: não importa quão mal eu me sinta, ou quantas colheres tenha. O importante são os sabores que vão enchê-las. E sabores não faltam nesse livro. Seja no Japão, com ninjas atrapalhados tentando invadir o quarto, ou em casa, em meio a uma maratona de Doctor Who, Jenny Lawson sabe degustar o que há de melhor quando tudo parece um caos sem fim.

E nossa, como precisamos aprender isso com ela.

>> Leia um trecho de Alucinadamente feliz

Mariana Calil é assistente editorial na Intrínseca. Tem um gosto muito louco para leitura, que vai de livros infantis a memórias de guerra, passando por literatura policial e ficção especulativa.

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Comentários

3 Respostas para “A rainha da Teoria da Colher

  1. Adorei seu texto, estou com o livro mas ainda não comecei, por outros na lista de espera, mas depois dessa explicação maravilhosa, estou me coçando pra começar logo…vou burlar a fila!!!

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