Bastidores

A arte de perder

17 / junho / 2016

Por Roberto Jannarelli*

Bosque_FdeFalcao

A arte de perder não é nenhum mistério.1 Não tenho certeza de quando nem como esse verso de Elisabeth Bishop chegou a mim, mas chuto que já faça mais de uma década que o ouvi/li pela primeira vez. É possível que o tenha lido em algum canto de biblioteca, ouvido em algum filme, ou até mesmo o tenha conhecido por alguma namoradinha imaginária no final da minha adolescência. Nem com muito esforço consigo ter certeza, mas podemos ficar com a terceira hipótese se ela soar melhor para o leitor — o cliente tem sempre razão. Eu me lembro com muita segurança de que o verso me intrigou porque, bem, para mim era bastante claro que a arte de perder não era exatamente fácil de lidar.

Não pensava nisso por uns bons anos, até que recebi a incumbência de trabalhar em F de falcão, uma grande aposta de não ficção da editora. Vencedor de prêmios. Best-seller do New York Times. Escolhido livro do ano por não-sei-quantos-mas-muitos prestigiados veículos estrangeiros. Em suma: coisa muito importante.

Como falei em um texto anterior aqui no blog, a gente tem o costume de pesquisar sobre os livros estrangeiros no início do processo de preparação do texto. Ler críticas, resenhas, essas coisas. Isso ajuda a entrar no clima, a entender alguns detalhes das histórias e a conhecer a linguagem do autor. Em F de falcão, porém, as sinopses apontavam para: Livro de memórias de professora universitária que perde o pai, entra em depressão e resolve praticar a falcoaria para superar a melancolia do luto. E mais: desafia todos os gêneros, um tratado de história natural com uma história de desenvolvimento pessoal, uma linguagem descritiva sem paralelos na literatura moderna.

(Quero ver falar que não tem mistério agora, Sra. Bishop.)

capa_F de Falcao_frente_Passado o momento de hesitação, confirmei que o livro era de fato muito interessante. Helen Macdonald, a autora, divide com o leitor o luto pela morte do pai — sua pessoa preferida no mundo — e mostra que o caminho para superação nem sempre é o que parece mais fácil. Ou mais simples. Mas se você estiver ao lado de um açor (o mais feroz dentre os falcões), certamente será o mais autêntico. Pode ser um pouco clichê, mas não é exagero dizer que nunca li um livro nem sequer parecido com F de falcão. É de fato uma história única.

Certa vez me perguntaram por que então eu achava que o livro tinha feito tanto sucesso (de crítica e vendas) no exterior, e minha resposta saiu meio de supetão: Porque as pessoas, assim como se identificam com histórias de amor, também se identificam com histórias de dor. Do mesmo jeito que quase todo mundo já amou alguém, quase todo mundo já perdeu alguém. Não sei se essa é uma relação de causa e efeito simples assim, mas acho que faz algum sentido.

Mas a autora tem grande mérito em fazer com que os leitores se identifiquem com uma história tão peculiar — convenhamos que não é fácil fazer isso em um contexto de falcoaria. A linguagem simbólica com que ela conta tudo é importante, porque permite que façamos nós mesmos as nossas comparações.

Além da linguagem cheia de beleza, metáforas e muita sensibilidade, o livro tem muitas outras virtudes. Talvez não seja proposital, mas Helen conta tudo com um certo cinismo que me cativou. Por exemplo: em um dado momento, ela conta que saiu para jantar com uma amiga logo depois de receber a notícia da morte do pai. Superando a reação de “dane-se a reserva do restaurante, volte para a Inglaterra agora!”, o modo como ela conta esse primeiro momento de uma refeição sabendo que o pai não está mais vivo é muito curioso. Ela passa uma sensação de “ok, vamos racionalizar, eu não posso fretar um voo agora e, bem, mesmo que ele tenha morrido eu ainda preciso me alimentar”.

Autora e leitores sabem que isso não vai acontecer, mas ela sabe que precisa tentar. É então que, tentando ajudar, a amiga aproveita um momento em que Helen se ausenta para ir ao banheiro e pede uma bela sobremesa de chocolate. Helen agradece, olha para aquele doce lindo, mas divide com o leitor seu pensamento de que “meu pai morreu, não é uma sobremesa de chocolate que vai me fazer feliz”. Ela agradece, retribui o carinho, mas o leitor consegue sentir sua angústia por não ter a capacidade de compreender a real amplitude da sua dor, mas sabe que uma sobremesa não resolve o problema.

Outro momento em que esse cinismo se mostra acontece quando uma espécie de DETRAN entra em contato com ela para cobrar uma multa, porque o pai de Helen havia deixado o carro em um local de difícil acesso e não voltou para buscá-lo. O carro foi rebocado, e, como o dono não fora ao depósito para retirá-lo, Helen precisou explicar, com certa dose de ironia, que o proprietário do carro havia morrido e que “não era intenção dele deixar o carro lá, ele só tinha morrido, mas realmente não tinha a intenção de deixar o carro lá”. E ainda foi preciso procurar o atestado de óbito para contestar a multa. Eu não sei se o cinismo é a forma mais saudável de lidar com o luto, mas tenho certeza de que eu não teria forças para lidar com uma situação dessas assim. Por esses e outros motivos, admiro muito a força que Helen mostra no livro.

Assim, se eu tivesse que resumir F de falcão em uma frase simples, diria que é a história de superação de uma mulher muito forte. Nesse ponto podemos dizer que é um livro bastante contemporâneo, ainda que de fato bastante inusitado.

Não sei se, ao final da história, Helen Macdonald concordaria com Elisabeth Bishop, mas acho que ambos, poema e livro de memória, são exemplos de como a literatura pode se mostrar como um ímpeto de superação — e depois de ler F de falcão a arte de perder fica bem menos difícil de lidar.

>> Leia um trecho de F de falcão

 

Roberto Jannarelli é editor-assistente de livros estrangeiros da Intrínseca. Nunca teve vontade de treinar falcões, mas já desviou de vários pombos no centro do Rio de Janeiro.

1 Do poema “One art”, de Elisabeth Bishop. Tradução de Paulo Henriques Britto.

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Comentários

2 Respostas para “A arte de perder

  1. Beto, fiquei com muita vontade de ler o livro. Resenha instigante demais!

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