Fernando Scheller

Um milhão de beijos perdidos

12 / maio / 2016

Ela chegou, sorrateira e bela, para me encontrar. Flutuou pelo quarto, em zigue-zague, sem se impor, mas fazendo-se notar. Suas vestes eram escuras, pesadas. Mesmo assim, mostrava leveza ao andar.

Ela sempre sabe a hora, só existe a hora certa. E ainda não era a hora, era quase a hora. Entendia bem a arte de esperar. Encontro marcado, muitos encontros marcados, e cada compromisso tinha o tempo exato para se concretizar.

Há quem nunca pense nela, há quem pense nela o tempo todo e, numa prova de deselegância, faça-a chegar abrupta e sem se preparar. Agora que a vejo de perto, cada vez mais perto, tento, em vão, decifrar seus contornos. Quero me lembrar.

A essa dama muito sábia é impossível enganar. Não tolera atrasos. Por vontade própria ou pelo mais completo acaso, encontros como este podem até se adiantar, porém nunca – repito: nunca – se adiar.

Para mim, foi sempre como se ela nunca existisse, admito que sempre a ignorei, nela jamais pensei. Eu e tantos outros somos assim. Nos últimos tempos, soube que estava próxima. No entanto, apesar de tudo, de toda a dor, não ansiei por sua presença.

Eis que ela chegou. E veio a caráter, pois é dia de festa. Não tem pausa, não tem feriado, faz o que manda o seu relógio pontual. Que bom, os fogos já começaram, vejo as luzes cor-de-rosa pela janela. Inácio ganhou a aposta. Disse que eu veria o Ano-Novo.

Ele olha para mim e diz alguma coisa. Seu hálito é doce. Cheira a bala soft de caramelo, aquela bem grudenta, e milk-shake do Bob’s. Inácio prometeu-me um milhão de beijos se eu ficasse. O único homem desta cidade que nunca beijei, o amor da minha vida.

Inácio, que sempre foi menino, agora se tornou homem. Sorte que o garoto de olhos grandes, ainda bem, insiste em fazer seu retorno, justamente agora. Ele se encanta com as cores do foguetório da orla, se distrai.

O som dos fogos fica, para mim, cada vez mais distante. Ela se levanta, sai de seu canto e se aproxima. Quero resistir só um pouco, porém tenho medo de que me leve de repente. Não quero ser teimoso, quero me render, ir em paz.

Os estouros lembram-me da infância, pipoca que arrebenta na panela. Os primeiros minutos do ano explodem como derradeiros grãos de milho que insistem em se metamorfosear mesmo depois que a panela já saiu do fogo.

Não estarei aqui para ouvir o aparelho que monitora meus batimentos cardíacos mostrar um traço e apitar. Não poderei consolar Inácio em seu desespero. Não verei os enfermeiros correrem quarto adentro e, inerte, não lhes darei chance de me ressuscitar.

Oba, outra pipoca estourou. Acho que é a última. Que privilégio, mais um segundo para mim. De vida. E mais outro. Então ela toca meu braço e vejo seu rosto. Estende-me a mão e eu aceito. Seus olhos são vazios, tristes, mas estranhamente compassivos.

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Comentários

2 Respostas para “Um milhão de beijos perdidos

  1. Texto lindo. Sinceramente poucas pessoas sabem escrever sobre a morte de forma tão bela e singela. Eu fiquei a pensar quanto ela pode ser elegante ou melhor sedutora, fazendo com que todos que a vê aceite o convite para um outro lugar. Que pena que ninguém voltou para nos relatar. Pensando bem,vou encontrar um Inácio na vida, que talvez nos beijamos um milhão de vezes ou apenas uma. Talvez eu ganhe Beijos que me proporcione um milhão de emoções, talvez, quem sabe seja em algum ano Novo. Ou em 365 dias, vários Inácios. Quanto a ela, prefiro evitar o encontro, a menos que ela tenha vontade. Mas se posso fazer um pedido, quero vê fogos e beijar Inácio.

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