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Tirania e nostalgia em quadrinhos

18 / maio / 2016

Por Alexandre Sayd*

árabefacebook

Nos anos 1980, bem antes do Estado Islâmico, da crise migratória ou mesmo do 11 de Setembro, o ditador da Líbia já era Kadafi, enquanto o tirano no governo da Síria era Hafez al-Assad, pai do atual presidente. Assim, apesar da distância de três décadas, ao lermos O árabe do futuro, do francês Riad Sattouf, temos a sensação de que o tema e o cenário escolhidos pelo quadrinista continuam estranhamente contemporâneos.

Na premiada trilogia, Sattouf narra em forma de quadrinhos sua infância e juventude. De pai sírio e mãe francesa, ele passou seus primeiros anos na Líbia e na Síria após o pai, doutor em história pela Universidade de Sorbonne, em Paris, conseguir emprego como professor nos dois países.

A partir das memórias, experiências e sensações de uma criança, o autor nos dá a oportunidade de vivenciar, sem preconceitos, esses dois universos. Este é o primeiro de vários aspectos geniais e talvez seja o grande trunfo da obra de Riad Sattouf: ele não tem a pretensão de nos ensinar nada, não pretende apresentar um ensaio geopolítico ou uma aula de história. Aprendemos muito com a obra, mas de forma natural e reflexiva.

É impressionante como a memória do autor é prodigiosa. Ela se apresenta com uma riqueza de detalhes que transcende em muito o meramente visual, com cheiros, sabores e impressões pessoais de quando Riad tinha pouquíssima idade. Ele se lembra de minúcias como o cheiro da França — em oposição ao cheiro da Líbia —, seus pratos preferidos e até mesmo de sonhos.

Impressiona em Sattouf, também, o domínio da arte de narrar em quadrinhos. Os personagens têm expressões hilárias e contagiantes, totalmente adequadas às cenas em que estão inseridos. O desenho lembra um pouco o dos Peanuts (“Charlie Brown”), de Charles M. Schulz, e Calvin e Haroldo, de Bill Watterson; porém com um uso muito diferente das cores, que, em O árabe do futuro, variam de acordo com o país retratado — na Líbia predomina o amarelo, na França, o azul, e na Síria, o rosa.

A história certamente perderia muito se transportada para outro formato que não o da graphic novel, e a qualidade da narrativa, somada à força da temática — que é crescer sob a tirania das ditaduras árabes —, coloca O árabe do futuro no mesmo patamar que Maus, de Art Spiegelman, sobre o holocausto, e Persépolis, de Marjane Satrapi, que expõe a opressão da mulher no mundo islâmico, em especial no Irã.

Na infância, Riad era louro e bem diferente do árabe médio, o que fazia dele um outsider instantâneo, com frequência excluído e hostilizado pelas outras crianças, que o tratavam por “judeu” e “filho do cão”. Nos ambientes mais isolados e remotos, sua família, em especial ele e a mãe, eram vistos pelos demais como extraterrestres. Isso não o impediu de fazer alguns amigos, que normalmente acabavam fascinados por seu exotismo e seus brinquedos do primeiro mundo.

riad

Riad tinha como grande herói e maior referência o pai, Abdel-Razak. Como leitor, vi no personagem um homem cheio de contradições e preconceitos, que se opõe ao obscurantismo religioso e às superstições do mundo árabe ao mesmo tempo que exalta figuras como Kadafi e al-Assad, incapaz de admitir os danos que esses tiranos causam aos países que governam. Enquanto critica o “atraso” de seus próprios pares e defende que o ensino deve ser livre do dogma religioso, Abdel afirma a todo instante a superioridade dos países islâmicos, defende o pan-arabismo e se recusa a enxergar a precariedade e a violência à qual expõe a si mesmo e a sua família.

As contradições presentes no pai de Sattouf se mostram, de certo modo, um reflexo de seu ambiente de origem. Especialmente na Síria, onde a família de Riad vive em uma pequena vila próxima à cidade de Homs, fica claro o contraste cultural entre a cidade grande e o interior, assim como entre os ricos e os mais pobres. Nos dois casos, os primeiros são muito mais ocidentalizados e livres das superstições e limitações religiosas.

Ao longo da história de Riad e sua família, somos introduzidos às particularidades desses dois mundos, ambos retratados de forma exótica. As crianças francesas são muito mais dependentes, imaturas e desinteressantes do que seus novos colegas árabes. No entanto, a comida na França é abundante e há lojas cheias de brinquedos, enquanto na Líbia, a comida é gratuita, mas escassa e pouco variada, e a distribuição dos alimentos ocorre em dias alternados para homens e mulheres, de modo a evitar contato entre os dois sexos. Já na Síria muitas crianças utilizam roupas de plástico que são réplicas das roupas verdadeiras: sapatos de plástico, no formato de tênis, com cadarços e tudo; uniformes escolares de plástico, com uma pintura que reproduz o cinto dos uniformes verdadeiros.

ArabeDoFuturo2_capa_MAINO segundo livro, lançado recentemente no Brasil, nos revela ainda mais sobre a Síria. Riad começa a frequentar a escola, onde encontra uma educação violenta e altamente doutrinária, com castigos físicos e cheia de leituras do Corão e exaltações ao presidente al-Assad. Lentamente ele passa a compreender melhor o mundo ao seu redor, até mesmo adquirindo uma visão crítica, e nós o acompanhamos nesse processo. Para leitores ocidentais, parece clara a maneira como a violência da sociedade se reflete no comportamento das crianças, que vivem brigando entre si e massacram animais como cães e sapos por esporte.

Percebemos também com maior nitidez como as mulheres são oprimidas e limitadas, reduzidas a cidadãs de segunda categoria — não há meninas nas escolas, e uma parente de Riad acaba assassinada por seus familiares após engravidar fora do casamento. Por fim, as contradições internas da Síria ficam mais evidentes em momentos como quando Riad e o pai vão ao bairro cristão para comprar carne de porco, ilegal no país, ou quando em uma visita à casa de um general importante os adultos consomem álcool, também proibido.

A obra é viciante, daquelas que nos deixam com pena de terminar a leitura. A parte boa é que os dois primeiros volumes estão disponíveis no Brasil, e já há um terceiro a caminho.

Riad Sattouf é cartunista e cineasta. Ele é mais conhecido por seu trabalho ao longo de dez anos no jornal de humor francês Charlie Hebdo, que foi alvo de um ataque terrorista orquestrado pelo Estado Islâmico em janeiro de 2015. Seu filme Les Beaux gosses recebeu o César de melhor filme em 2010, e o primeiro volume de O árabe do futuro ganhou em 2015 o prêmio principal do Festival de Angoulême, considerado o mais importante do mundo dos quadrinhos. Com a crise migratória, Sattouf ajudou seus familiares da Síria a conseguir refúgio na França.

Alexandre Sayd é jornalista e descendente de franceses e libaneses.

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Comentários

Uma resposta para “Tirania e nostalgia em quadrinhos

  1. Lindo texto, me encantou. Agora quero ler os livros.

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