Fernando Scheller

O silêncio do primeiro amor

5 / maio / 2016

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Lila sabia que não tinha a menor chance. Tinha dezessete anos e ele já havia passado dos trinta. Bernardo era meio artista, meio músico, meio professor universitário, meio quase tudo. E Lila era uma coisa só: estudante secundarista. Exibia desempenho acadêmico pouco acima da média e era péssima em educação física.

Bernardo não sabia que ela existia. Uma realidade dura e imutável. Ridícula e desajeitada, Lila dava um jeito de pôr-se na sala de casa toda vez que Bernardo aparecia por lá. O irmão dela, bem mais velho, que voltara para a casa dos pais depois de se separar da mulher, dava aulas de inglês para sobreviver. Mas Bernardo não as pagava — em troca, ensinava ao seu nada musical irmão um pouco de violão.

Lila uma vez ganhou, por acaso, uma carona na motocicleta de Bernardo. Iriam, pelo menos aquele dia, na mesma direção. O coração dela disparou, os pelos de seu braço se levantaram em excitação. Sentia o motor da motocicleta tremer entre suas pernas e agarrava-se ao torso de Bernardo, de um jeito lasso e determinado. Naqueles dez ou quinze minutos, não ouvia o barulho das buzinas e dos ônibus. Estava ocupada demais se apaixonando de vez.

Bernardo, de repente, cansou-se das aulas de inglês e desapareceu. Jamais trocaram telefones, tomaram um café ou se beijaram. Nada próximo a isso, apenas a carona. No entanto, ela construiu um quebra-cabeça de informações sobre ele. Descobriu que morava sozinho, num quarto e sala de uma rua tranquila. O irmão de Lila havia ido a uma festa na casa dele uma vez.

Volta e meia, pegava um ônibus e saltava bem perto da casa de Bernardo. Não sabia o que esperar, mas, uma ou duas vezes por semana, ficava ali observando. Não queria que ele a visse nem que a convidasse a entrar — na verdade, morria de medo de que isso ocorresse, de tão mortificada ficaria.

Recostava-se em um carro estacionado do lado oposto ao edifício de Bernardo e ficava, parada, sempre em um ponto de penumbra. A luz do apartamento se acendia, o coração dela disparava. Ele passava pela janela, de um lado e de outro do terceiro andar, às vezes sem camisa. Reconhecia-o pelo cordão no pescoço que brilhava na contraluz.

Nunca vira Bernardo com outra mulher, e acreditava que não se incomodaria caso isso acontecesse. Imaginava-se perto dele, recordava-se do leve toque de seus dedos ao redor de sua cintura quando ela se desequilibrara ao desembarcar da motocicleta. Ele a tocara, ainda que casualmente, uma única vez. Agora, ela o tocava com os olhos.

Seu primeiro amor foi assim, a distância, sem nada esperar, sem nada receber. Ficava ali observando, por quinze ou vinte minutos. Às vezes via Bernardo, às vezes não. Pensava nele antes de dormir, e era dolorido, de uma maneira sem sentido. Controlava-se para não se lembrar dele, e principalmente para não se transformar naquela sentinela sem razão de ser, no meio da rua. Ao completar a maioridade, sua resolução foi dar um basta na situação. E nunca mais desviou do seu caminho para olhar Bernardo.

Só voltou a encontrá-lo quatro ou cinco anos mais tarde, quando já estava no último ano da faculdade. Achou que ele havia envelhecido bastante, talvez engordado um pouco. Bernardo sorriu para ela, Lila perguntou-se se ele conseguia se lembrar de onde a conhecia. Num impulso, ela tocou a barba por fazer dele, já meio grisalha. Ele pareceu um pouco assustado, mas de uma maneira boa, se é que isso faz sentido. Lila sentiu pequenos choques nos dedos. Ainda estava tudo ali.

Tinha por aquele completo desconhecido de olhos negros mais amor do que pelo namorado atual ou pelos anteriores. E ele jamais saberia disso.

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Comentários

4 Respostas para “O silêncio do primeiro amor

  1. Belo texto! Estou lendo “O amor segundo Buenos Aires” e gostando demais. Parabéns!

  2. Perfeito! O sentimento de preciso ler mais foi despertado. Parabéns, as palavras empregadas, fazem com primor sua função.

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