Leticia Wierzchowski

Dos sonhos

6 / maio / 2016

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Quem frequenta vestiários sabe da camaradagem que por vezes se instala entre seus frequentadores. É até engraçado, mas algumas mulheres com quem convivo eu só vejo seminuas — talvez seja essa quase nudez que nos permita uma intimidade que não teríamos numa praça ou mesa de bar.

Dia destes, após a natação, vi uma mãe vestindo, com grande confusão, seu filho pequeno. Eu, que sou mãe de meninos, senti uma nostalgia do tempo em que também precisava segurar meus guris para enfiar-lhes a fralda. Ri daquela ginástica maternal — um dos tantos jogos que nós, mães, temos de fazer para tocar adiante os dias das nossas crianças —, assim como uma senhora de idade já bem avançada. Ambas, de calcinha e sutiã, comentamos dos nossos meninos pequenos e das suas estrepolias. A senhora disse: “Meu filho já tem 50 anos e mora longe daqui. Mas, sempre que sonho com ele, é um menino de fraldas. Nos meus sonhos ele nunca cresceu.”

Achei aquilo muito lindo. Meus próprios sonhos têm seus predicados e personagens favoritos. Quando meu padrinho, Ricardo, morreu — durante muitos anos ele foi como um irmão mais velho para mim —, por muitos meses, toda noite eu sonhava com ele. Sua morte súbita foi um choque. Foi nos sonhos que nos despedimos. Depois, embalada pelos nossos oníricos encontros, acabei escrevendo um romance (Os Getka, ed. Record) e transformei-o em personagem principal. Assim como nos sonhos a gente revive nossos amores, na literatura, de forma um pouco mais consciente, revivo pessoas e afetos.

A casa azul da minha infância em Cidreira até hoje é meu palco predileto. Meus sonhos têm o hábito de desenrolar-se entre aquelas paredes há muito perdidas. Era por lá que meu padrinho passava todas as noites. Lá, meus meninos — que nunca entraram naquele chalé — engatinharam e falaram. Cada alegria e cada dor desta vida, durante minhas noites, migraram para lá. Já morei em vários lugares, e minhas férias há mais de trinta anos têm muitos destinos. Mas a casa azul segue firme e confiante, rainha dos meus sonhos até hoje.

Ultimamente, virou palco de outras histórias. Passei a sonhar com os primeiros anos do meu casamento. Mas, em vez de São Paulo, aquela vida de outrora se desenrola no chalé azul da Avenida Mostardeiro que meu avô Jan construiu. Um a um, noite após noite, meus amores e minhas saudades têm migrado para lá.

 

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