Artigos

Como desarmar um número (ou comprar pasta de dente)

30 / maio / 2016

Por Bernardo Barbosa*

qestats

Ilustração de Irving Geis

Se alguém perguntar a você o que vem à cabeça quando se fala em defesa pessoal, seu pensamento provavelmente formará imagens de um golpe certeiro para desarmar um assaltante com uma faca ou de uma aula de krav maga. Mas devo dizer que o livro Como mentir com estatística, relançado agora pela Intrínseca, talvez lhe seja mais útil.

Calma, querida leitora, querido leitor: não é o caso de recorrer ao seu exemplar para afugentar um trombadinha ou coisa do tipo. No entanto, quando números de origem obscura partem para o ataque e você não é um faixa preta da estatística, os ensinamentos desta obra clássica, escrita em 1954 e que desde então nunca saiu das livrarias, devem ajudá-lo a escapar são e salvo.

untitledComo mentir com estatística é assinado por Darrell Huff (1913-2001), um jornalista e escritor americano que nunca foi especialista em números. Isso não o impediu de fazer um livro leve, educativo e bem-humorado sobre um tema tão árido, levando ninguém menos que Bill Gates a dizer, em pleno 2015, que a obra era “mais relevante que nunca”. Segundo o magnata, o livro é um “lembrete oportuno, dado o quão frequentemente infográficos aparecem no seu Facebook e no seu Twitter atualmente”.

De fato, somos confrontados com estatísticas a todo momento, e não só nas redes sociais. Quem nunca se deparou com a proverbial propaganda da pasta de dente recomendada por oito entre dez dentistas? Ou abriu uma reportagem e leu que uma cidade está 20% mais violenta?

Huff mostra que fazer os números falarem o que se deseja pode ser tão tentador quanto colocar “espanhol intermediário” no currículo. Claro, isso pode acontecer por má-fé (a pessoa sabe que só fala portunhol, e mal) ou por um desconfiômetro baixo (a pessoa realmente crê que fala espanhol, apesar de não conseguir pedir um bife de chorizo em Buenos Aires). Seja qual for o motivo, quem acredita naquela informação errada será igualmente prejudicado, e o escritor explica passo a passo como isso acontece quando lidamos com estatísticas.

Por exemplo, no caso da propaganda da pasta de dente: é possível saber quantos dentistas foram entrevistados ou qual foi a pergunta feita a eles? Sobre a violência, que tipo de delito está sendo levado em conta? Que definições de “violência” estão sendo usadas? Qual a base de comparação?

Desconfiar de números tão certeiros, mostra Huff, nunca é demais – especialmente quando eles vêm acompanhados por um gráfico. Ah, os gráficos… Quase sempre coloridos, às vezes até animados, volta e meia cheios de nada. Os capítulos sobre gráficos são um ponto alto de Como mentir com estatística, e não é preciso voltar à década de 1950 para ver o que pode acontecer com leitores desprevenidos.

Em 2014, a renomada agência de notícias Reuters publicou um gráfico para mostrar o impacto de uma nova lei no estado americano da Flórida sobre o número de mortes por armas de fogo. Uma mera inversão de eixo fez com que ficasse praticamente impossível entender o que a ilustração queria mostrar. Além disso, como apontaram críticos, “a redução de uma estrutura causal complexa a apenas um fator é insatisfatória”.

Viaje mais alguns anos no tempo para chegar a 1982, quando Leonel Brizola e Moreira Franco eram os favoritos na corrida pelo governo do Rio de Janeiro. Naquele ano, pela primeira vez, a apuração dos votos seria informatizada. Em paralelo, veículos de imprensa montaram uma estrutura própria, com base nos dados oficiais, para chegar ao resultado da disputa.

depois-de-fraude-descoberta-brizola-tomou-posse-como-governador-do-estad

As eleições de 1982 no Rio de Janeiro, que quase foram fraudadas por estatísticas. (fonte)

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio contratou a empresa Proconsult para processar os dados das urnas. Ao mesmo tempo, o Jornal do Brasil e a Rádio JB tinham uma estrutura própria de contagem dos votos. A Proconsult deu prioridade às zonas eleitorais do interior, onde Moreira Franco era tido como favorito, e a TV Globo se fiou nos dados da empresa em sua cobertura. Já a Rádio JB investiu na capital, onde estavam a maioria dos votos no estado. Notou que ali Brizola liderava e depois conseguiu atestar sua vitória. A Globo nega ter dado favorecimento a Moreira Franco – então candidato do PDS, sucessor da Arena, o partido da ditadura militar. Suspeitas à parte, o fato é que a confusão colocou a apuração em xeque. No fim, após denúncias, admissão de erros e recontagens, Brizola foi reconhecido como vencedor do pleito.

Seja para ler corretamente um gráfico, entender o resultado de uma eleição ou não cair em armadilhas publicitárias, Como mentir com estatística é daqueles livros que mudam nossa forma de ver o mundo. Ainda tem a vantagem de contar com as ilustrações divertidíssimas de Irving Geis (também conhecido por seu trabalho na ilustração de livros e artigos científicos) e poder ser lido numa tarde na praia ou no parque. Melhor que krav maga.

 

Bernardo Barbosa é jornalista e agora pensa duas vezes na hora de comprar uma pasta de dente. Trabalhou no jornal O Globo e na agência de notícias Efe.

Leia mais Artigos

O amor à guerra

O amor à guerra

Clube de leitura: Como eu era antes, de Jojo Moyes

Clube de leitura: Como eu era antes, de Jojo Moyes

Contra o feminismo branco e a verdadeira quarta onda do feminismo

Contra o feminismo branco e a verdadeira quarta onda do feminismo

Yung Pueblo: autoajuda para o século XXI

Yung Pueblo: autoajuda para o século XXI

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *