Fernando Scheller

Não há mais medo, há apenas amor

20 / abril / 2016

São pequenos momentos, talvez um tanto tolos, que definem o amor. Em todas as formas de afeto, há um rito de passagem: seja um colega que vira amigo, um namoro bobo transformado em uma relação para valer ou instantes que reforçam a união entre pais e filhos muito além dos laços de sangue. Em O amor segundo Buenos Aires, todos os personagens têm uma imensa capacidade de amar. Cada um, porém, o faz à sua maneira. A seguir, exemplos desses momentos definitivos em que Hugo, Pedro, Carol, Eduardo e Daniel simplesmente decidiram se render ao que sentiam. Pequenos espaços de tempo em que não havia mais medo. Apenas amor.

Hugo:
Já faz meia hora que a espero. Sob uma árvore, devoro uma cestinha de pães e tomo três cafés expressos. Ela acena de longe. Alta e angulosa, chama-se Leonor. Rio sozinho — afinal, quem se chama Leonor hoje em dia? Ao se aproximar, diz um “oi” desajeitado e usa os dedos para tocar levemente os meus ombros e, meio sem querer, sinto de leve sua pele contra o meu pescoço à medida que me levanto para dar-lhe um beijo e cumprimentá-la. Ela segura o meu braço, delicada e firme. A cada toque, mesmo acidental, sinto-me despedaçando em milhares de partículas.

Pedro:
O bebê usava uma touca laranja — eu me lembro bem que era laranja — e, acordado no berço, sorria. Hugo era assim: olhava as sombras que o sol, vencendo as frestas da cortina, fazia no teto do seu quarto. Eu o olhava, analisava, admirava. Era assim, até que foi diferente. Porque eu senti. Sim, o ventre do pai se contraindo, como se o menino estivesse nascendo naquele momento. Era um dia como outro qualquer, um bebe babão olhando para o nada, e eu soube. Era o amor da minha vida.

Carol:
Um homem estranho — em todos os sentidos da palavra — acaba de sair do meu quarto de hotel. Tento achar algo para assistir na televisão, mas acabo desistindo. Tento identificar o que sinto agora. Não consigo encontrar resquícios de vergonha nem de infelicidade, não acho nada. Imagino todas as pessoas que já passaram por este quarto, dia após dia, e me pego tentando adivinhar suas histórias. Então Hugo me vem à cabeça, como sempre acontece. Resolvo abrir o frigobar e procurar uma garrafinha de gim.

Eduardo:
Daniel se movimenta pelo restaurante cheio de homens tristes. Ao contrário de todos os outros que trabalham naquele ambiente decadente, que cheira a álcool derramado e comida malfeita, ele transpira compaixão. Mais uma garrafa de vinho, outra porção de empanaditas. A casa está cheia e, de repente, ele para no bar. Só alguns segundos para recuperar o fôlego. E olha para mim. Estou sentado perto da janela, no polo oposto do salão. Todo o resto para, mas consigo perceber uma luz néon verde, do lado de fora, piscando sobre mim.

Daniel:
Perdoe-me se os meus modos parecem um pouco antiquados, mas preciso que saibas. Dedico-me a fazer algo que jamais pensei em fazer: escrever uma carta de amor. Preciso que saibas, não quero mais ser um mistério para ti. Nunca fui bom com as palavras. Se tivesses crescido nos grandes vazios dos pampas, também sentirias, ao abrir a boca, que seus segredos se espalham por vastos campos. Uma ideia me vem à cabeça. Recomeço. “Eduardo, tu não és o amor da minha vida, és a vida em si.”

Hugo:
Fazia um ano e meio que Leonor havia ido embora. E então veio Mar. Havíamos andado o dia todo por Buenos Aires. Ela comera uma pera no mercado de San Telmo. Mesmo agora, horas mais tarde, enquanto subimos as antigas escadarias do meu edifício sem elevador, posso sentir de leve o cheiro da fruta. Quatro andares acima. Quando chegamos diante da minha porta, que tem uma daquelas antigas janelinhas na altura dos olhos, ela ri e elogia a ideia que tive de pintá-la de vermelho. Eu digo que sempre a deixo destrancada. Mar olha para mim e sorri. Não diz nada. Ficamos ali, admirando a porta por mais um tempinho.

Pedro:
Meu filho de 32 anos está preso a um emaranhado de fios, os cateteres da quimioterapia administram mais medicamentos do que o corpo humano parece capaz de aguentar. A febre vem e vai, pergunto-me se sente dor. Ele escuta uma música do Fleetwood Mac a todo volume com os fones de ouvido — o som vaza, consigo identificar a canção. Hugo não falou nada o dia inteiro, mas, de repente, talvez num pequeno momento de delírio, diz alguma coisa. Pausadamente. “Não há mais medo, há apenas amor.” Então sinto as contrações novamente.

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