Fernando Scheller

Mapas afetivos de Buenos Aires

28 / abril / 2016

O Mercado Primeira Junta

O Mercado Primeira Junta

Conte os passos (baixe um aplicativo no celular para isso, se quiser), use tênis velhos e laceados, leve uma garrafa d’água e atente aos detalhes para não perder surpresas e encantamentos que só você pode ser capaz de ver. Fones de ouvido são bem-vindos: afinal, às vezes, só uma boa música consegue resumir o que a gente está sentindo.

Eis a primeira parte dos meus mapas afetivos de Buenos Aires. Ah, e se você acabar achando que viu Hugo, Eduardo, Carolina, Daniel, Pedro, Charlotte ou até Leonor, não será miragem ou alucinação. Eu também os vejo por todo canto em Buenos Aires.

 

1. Comece longe do Centro

Bogota, 101, Caballito

Pegue o metrô e vá à estação Rio de Janeiro. Por lá, não será difícil encontrar o caminho até a Livraria Caligari — pode perguntar para as pessoas (sim, elas vão ajudar) ou então usar o serviço de mapas do celular. A livraria preferida de Daniel — você vai conhecê-lo quando ler O amor segundo Buenos Aires — é comandada por Lalo, que, além de amante de livros (tanto dos novos quanto de peças de colecionador), é um senhor jazzista. Se tiver sorte (e bom papo), talvez Lalo faça uma palhinha do seu talento no contrabaixo especialmente para você. Se ele tiver mais o que fazer, não se preocupe: há jam sessions regulares na Caligari.

 

2. O que tem de mais neste mercado?

Metrô Primera Junta

Já me perguntaram o que o Mercado Primera Junta tem de tão especial. À primeira vista, nada. Mas dá para ir andando da Livraria Caligari até essa espécie de minimercado municipal (a caminhada dura uns quinze minutos) e eu sempre gostei, em viagens, de observar como vivem as pessoas que moram nos lugares por onde passo. E o bairro do Caballito é um local muito bacana para fazer isso. Pela manhã, as frutas estão sempre frescas no Primera Junta, e há uma enorme variedade de peixes. Se você achar o mercado meio sem graça, não tem problema: há uma estação de metrô bem em frente. Basta correr para o próximo destino.

 

3. O velho alfaiate

Scalabrini Ortiz

A umas seis quadras da estação Scalabrini Ortiz está a San Martin Confecciones Finas — e conhecer Martín, o proprietário, é um presente. Ele tem opinião sobre tudo — política, futebol, elegância masculina — e não é difícil conversar com ele por uma hora. Olhe em volta: observe os alfaiates fazendo riscas em giz para marcar os tecidos, as fileiras de trajes já prontos (em apenas duas ou três cores básicas) e, sobretudo, admire a elegância de Martín e de suas roupas impecavelmente passadas. Só tome cuidado: ele é um excelente vendedor e, antes que perceba, você pode deixar a loja com dois ternos novinhos em folha. Aconteceu com Hugo e Pedro, em O amor segundo Buenos Aires. E comigo também.

 

4. Surpresa na estação

Metrô Carlos Pellegrini (dentro da estação)

A mais central das estações de metrô de Buenos Aires, a Carlos Pellegrini, é muito movimentada. E conseguir chamar a atenção de qualquer um a caminho de casa, na hora do rush, não é nada fácil. Mas Tom Moore tem esse dom. Com seu repertório de raridades do rock, ele não chama a sua atenção, ele a furta — e tudo o que se pode fazer é sentar, ignorar o vaivém barulhento dos vagões antigos e se render. Fleetwood Mac, Creedence, Elvis, Beatles, Cat Stevens… Tom Moore é todos em um só. E vale comprar seu CD.

 

5. Reconciliação com o passado

Bairro de Mataderos

Um programa para o domingo. A melhor maneira de chegar à Feira de Mataderos é com o ônibus 126, que passa pelo Centro de Buenos Aires (há pontos perto da Casa Rosada e no bairro de San Telmo, por exemplo). A feira é um bom antídoto à Buenos Aires “moderna”: com comida típica e danças folclóricas, o programa acaba sendo um bem-vindo retorno ao passado — para Eduardo, outro personagem de O amor segundo Buenos Aires, a visita à feira marcou uma reconciliação com o próprio pai.

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