Leticia Wierzchowski

Criando os filhos para o mundo

14 / abril / 2016

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Na imagem, meu avô no passaporte que o trouxe até o Brasil, há exatos oitenta anos.

A Brigada Militar de Porto Alegre postou um tuíte pedindo que a população circule pelas ruas “carregando somente o necessário”, porque, claro, não há segurança para ninguém. Você pode ser assaltado a qualquer hora do dia na esquina de casa, com arma na cabeça, e lá se vai sua bolsa, seu celular, seu carro, seu casaco, sua esperança, sua paz de espírito e, dependendo do desfecho, sua vida.

Como todo mundo, deixei de fazer muitas coisas que outrora fazia com tranquilidade: evito andar de carro à noite, sair a pé depois que escurece, carregar cartões bancários à toa, estacionar na rua… Deixei de ir a eventos em lugares distantes quando não tenho companhia.

Triste lembrar que houve um tempo, quando morei fora, em que eu sonhava com Porto Alegre. Agora, vejam só: roubaram Porto Alegre de nós. Roubaram-na dos nossos filhos, que tiveram de aprender a entrar e sair correndo do carro, a não falar com estranhos e a não dar informações pela rua por causa dos sequestros-relâmpagos que grassam por aqui.

A verdade é que roubaram o Brasil dos brasileiros. Mas o mais triste é saber que roubaram o país dos nossos filhos. Um país que era para ser deles, com um futuro bonito. Um país onde um cidadão de bem pagaria seus impostos em dia — impostos altos, vá lá — para ter um suporte estatal à altura do seu investimento cotidiano.

Lembro, com uma pontada de tristeza, que meu avô polonês atravessou meio mundo na terceira classe de um navio — com uma das mãos à frente e a outra atrás —, levando consigo nada mais do que sonhos, em busca de uma vida boa aqui nesta terra. Hoje, quero que meus filhos façam o caminho inverso ao do velho Jan W.

“Aqui, não”, eu lhes digo (com um nó no peito). Pode parecer egoísta, mas prefiro ser egoísta com o país a ser com meus meninos. Quero-os acreditando que pode dar certo, que existem leis e que elas regulam a sociedade em todas as instâncias. Quero-os andando pela rua com tranquilidade, não como andamos por aqui, onde a própria polícia — que nem salários em dia recebe — avisa que devemos levar “somente o necessário”.

Acontece que necessito de muitas coisas. Necessito sair de casa com a alma leve. Necessito saber que meus filhos, andando pela rua, não vão cruzar com um maluco armado, capaz de fazer qualquer coisa por um par de tênis. Porém, não temos mais lugares seguros: arrastões em supermercados, em restaurantes, até em igrejas. Relatos horríveis.

Onde estão nossos governantes? O que têm feito de efetivo? Aqui no estado, ou aparecem para dar explicações de salários parcelados, ou postam fotos supérfluas de eventos supérfluos enquanto a cidade é devastada por uma onda de violência sem limites. Lá em cima, no Planalto, a turma está mais ocupada com a distribuição de cargos fundamentais da República, nessa queda de braço desavergonhosa pelo poder.

Já perdi Porto Alegre, meus filhos já a perderam (sem nem sabê-lo, coitadinhos, que houve um tempo em que a gente brincava na calçada até a hora do jantar). Do futuro do Brasil, só o tempo dirá. Do futuro dos meus filhos, digo que trabalharei para que seja longe daqui. E digo com tristeza, podem acreditar.

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