Artigos, Clube do Livro

Clube de leitura: Vale-tudo da notícia, de Nick Davies

14 / abril / 2016

Por Bruno Leite*


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Bafo, babado, fofoca, boato, intriga, mexerico, maledicência; essas são as palavras de ordem na redação de qualquer tabloide, porém o britânico News of the World as levou às últimas consequências. As manchetes do semanário de Rupert Murdoch eram alimentadas por grampos telefônicos ilegais e envolviam uma série de pessoas em uma gigantesca teia de corrupção, mentiras e especulações. No recém-lançado Vale-tudo da notícia, o jornalista Nick Davies narra de maneira hipnótica sua investigação do monstro especulativo que funcionava num dos maiores conglomerados de notícias do mundo. (E, se preparem, porque hoje tem trilha sonora para acompanhar o post.)

Tramas que abordam os bastidores do jornalismo me comovem: sempre me identifico com os impulsos desses personagens em contar uma boa história custe o que custar.  O vencedor do Oscar de melhor filme desse ano, Spotlight: Segredos Revelados, pertence ao gênero. Vocês gostam desse tipo de filme? Eu, particularmente, sou apaixonado pela cinebiografia desse homem — e por ele também.

CAPA_ValeTudoDaNoticia_destaque_pLendo os relatos de Nick Davies, fiquei impressionado com a quantidade de pessoas (de áreas tão diversas) que participaram dessa enorme teia de corrupção. Mas acho que podemos iniciar a discussão a partir de alguns personagens centrais.

Rebekah Brooks: editora do jornal The Sun. Conseguiu a proeza de, em onze anos, passar de secretária a editora do News of the World.

Andy Coulson: editor do News of the World após a saída de Brooks, também teve uma carreira meteórica no mundo da News Corp. e era conhecido pelo seu apetite voraz no “café da manhã das estrelas do rock”.

Clive Goodman: primeiro jornalista do News of the World a ser pego. Com uma carreira estagnada para os padrões alucinantes do NOTW, investiu em grampos contra a família real — sua última e mais arriscada cartada.

Greg Miskiw: editor do noticiário, um verdadeiro garotão — pelo menos no espírito. Era o gerenciador do esquema de escutas e dono de uma penosa ansiedade que o fazia bater a cabeça contra a parede em momentos de tensão.

Glenn Mulcaire: espião contratado inicialmente por Miskiw, era uma verdadeira sombra capaz de se esgueirar por entre companhias telefônicas, delegacias e afins.

James e Rupert Murdoch: filho e pai, são donos do maior conglomerado de mídia do mundo, a News Corp. e, consequentemente, donos do NOTW.

PCC (Press Complains Commission): agência reguladora da imprensa britânica que deveria prezar pela qualidade e solidez dos periódicos no Reino Unido.

Alan Rusbridger: editor do jornal The Guardian, amigo e chefe do autor, foi ele quem estimulou Nick a ir atrás da matéria.

Agora vamos aos personagens secundários! Ainda que tenham atitudes altamente condenáveis, a excentricidade dessas pessoas despertou minha simpatia logo de cara. Entre eles, temos Benji, o homem do lixo que vagava pelas noites revirando monturos atrás de algo que pudesse vender aos tabloides; Michael Boddy, o Micky the Mouse, um ex-viciado em heroína mestre em rastreamentos; e Phil Winton, o dono de uma agência de investigações louco por carros velhos e gatos que convenceu o conselho municipal a trocar o nome da ruela atrás de seu escritório para <3 Siamese Mews <3.

E vocês? Conseguiram gostar de algum personagem?

O processo de instalação de escutas e a invasão insana de privacidade promovida nos bastidores do jornal expõem pessoas em uma série de situações com desfechos imprevisíveis. Alguns momentos, como quando as mensagens do príncipe Charles para sua amante à época, Camila Parker Bowles, foram divulgadas, me deram uma vergonha alheia muito grande e me fizeram repensar quantas vezes eu gero pageviews ou endosso esse tipo de comportamento por parte do jornalismo. Vocês também se sentiram incomodados com as informações que surgem ao longo do livro? Conseguem se colocar no lugar dessas pessoas? Já pensaram se os áudios que vocês enviam vazassem sem nenhuma justificativa?

Outro fator que me chocou foi o nível de corrupção dentro de instituições que deveriam promover a segurança (como a Scotland Yard) e a qualidade do ofício jornalístico (como o PCC). Vocês fizeram um paralelo com a história recente do nosso país? Também veem nesse esquema um modelo de como instituições podem ser corrompidas e que processos assim são mais comuns do que imaginamos?

Essas e outras perguntas — e é claro, o julgamento disso tudo — serão levantadas no dia 14 de abril, às 19h30 no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon. Para se inscrever, basta enviar um e-mail para renato.costa@livrariacultura.com.br informando nome e telefone para contato. Se você não puder ir, não tem problema; você também pode participar do clube de discussão on-line.

 

Bruno Leite, é estudante de letras, trabalha há oito anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

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