Leticia Wierzchowski

Bordando a vida

28 / abril / 2016

Viajo por dez dias e, na volta, encontro tudo igual, talvez um pouquinho pior: tristes declarações da nossa presidente apoiando as barbáries do MST e mais um atentado absurdo em Jerusalém. Aqui em casa, tirando a morte de uma das plantas da minha varanda, tudo segue harmoniosamente igual.

As manchetes de jornal, já velhas, esperavam-me sobre a escrivaninha quando cheguei, e num ZH de domingo encontro uma matéria interessante sobre “as prendas femininas”. Dessas férias, eu trouxe uma sacola de lãs para tecer no inverno que se aproxima. Sempre trancei agulhas ¾ de pequena, minha mãe me ensinou a tricotar. Ela dava lãs para as três filhas, e nós mesmas fazíamos nosso guarda-roupa de inverno.

Era lei lá em casa, e aprendi muito naquelas noites entre meadas e fios. Engraçado que bordar, tricotar e costurar tenham sido afazeres crucificados até pouco tempo atrás. É verdade que, durante muitos anos, o feminismo e o capitalismo não admitiam que mulher produzisse para consumo próprio. Bordar, só se fosse na fábrica, para não deixar morrer de fome os cinco filhos analfabetos.

Não tenho nada contra mulheres que não gostam de tricotar ou cozinhar ¾ cada um faz o que quer com o tempo livre, inclusive nada, o que sempre é uma boa alternativa. Mas não compreendo a vergonha que alguns veem no exercício dessas “habilidades tipicamente femininas”.

O trabalho manual guarda em si um alento, um abandono, um recanto no qual os pensamentos fluem, dão voltas junto com a linha e transcendem. Sempre pensei muito enquanto bordava. Aliás, foi atrás de uma máquina de costuras que enveredei pelo caminho inexorável das histórias, pois eu tinha uma confecção quando comecei a escrever meu primeiro livro.

É bem verdade que bordar sempre clareou minhas ideias. E não só as minhas — tenho várias amigas (arquitetas, fotógrafas, publicitárias, advogadas) que nas horas vagas também empunham suas agulhas assim como faziam suas avós donas de casa, assim como fazia Penélope esperando o retorno do seu Ulisses. Se durante algum tempo nos envergonhamos disto, do talento das mãos para a criação, isso ficou no passado.

Seria tão ridículo quanto se envergonhar do nosso próprio ventre fecundo.“Eu gosto da metafísica, só pra depois. Pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz. Falar as falas certas: a de Lurdes casou, a das Dores se forma, a vaca vez, aconteceu. As santas missões vêm aí, vigiai e orai que a vida é breve”, pois o feminino se encontra em muitas coisas, assim como na voz de Adélia Prado.

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