Maurício Gomyde

Mas esse livro é sobre o quê, mesmo?

23 / março / 2016

Livros_21

Toda vez que escrevo um livro, a pergunta que mais me ocorre ao longo do processo, muitas vezes até quase o fim, é: “Mas esse livro é sobre o quê, mesmo?” Pode parecer absurdo, e talvez seja, considerando que o simples fato de estar envolvido pela história já deveria pressupor uma resposta “na lata”, como costuma dizer minha filha mais velha. Mas é provável que o leitor se faça a mesma pergunta, e acho importante eu ter plena ciência do que se trata aquilo. Dizem, inclusive, que, se o escritor conseguir responder em apenas uma palavra, tudo estará a bom caminho de ser perfeito.

Surpreendente! é sobre…?”. Minha resposta, na lata: amizade. Poderia ser cinema, mas descobri, ao longo do tempo, que cinema era apenas o pano de fundo. Se fosse somente sobre isso, seria mais eficiente tentar um tratado cheio de dados a respeito de algum aspecto da sétima arte — e adianto aqui minha incompetência para tal.

Em Surpreendente!, eu estava em crise com minhas amizades por culpa de uma ferramenta dos infernos criada supostamente para aproximar as pessoas, mas que tem sido pródiga em afastá-las: as redes sociais. Tentei, então, contar uma história de amizade que fosse além das redes. A amizade da estrada, do projeto conjunto, do sonho sonhado a oito mãos; do curtir com uma risada, não com um clique; do compartilhar a emoção com uma palavra, não com outro clique. Por fim, do comentário olho no olho, não escondido por detrás de uma tela de computador.

A resposta à questão sobre do que trata a nova história, entretanto, não terá a força de uma única palavra, mas de duas: felicidade e tristeza. Como diria Vinicius de Moraes, em seu belo “Samba da Benção”: “É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe. A tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste, não.”

Nos dias atuais, ando tendo debates profundos — comigo mesmo e entre cada nascer do sol — sobre esta dicotomia felicidade-tristeza. Elas podem ser medidas? Quanto de razão é capaz de influir na certeza de eu dizer que sou feliz ou triste? O que pode me trazer momentos genuínos de felicidade? E de tristeza? São perguntas difíceis.

Acho que ontem vivi momentos felizes e hoje acordei de alma leve: recebi a notícia de um amigo que saiu do hospital depois de dias de luta; fui ao show do Iron Maiden, duas horas cravadas de energia e congregação entre milhares de pessoas que estavam ali só para celebrar a emoção de assistir ao vivo a alguém fazendo aquilo que fez parte de suas vidas; e, ao entrar em casa de madrugada, encontrei minha filha pequena dormindo de boca aberta, vestida com uma de minhas camisas.

Se, em meio a tantos bombardeios de tristeza que têm atingido os territórios que frequento, eu tiver a sorte de ser agraciado com pílulas de felicidade assim, não precisarei me fazer mais tantas vezes aquela pergunta do título. Se Deus quiser, tampouco os leitores.

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Comentários

6 Respostas para “Mas esse livro é sobre o quê, mesmo?

  1. Tenho muito interesse sobre como escritores enxergam a escrita e o que fazem para externar sua arte. Dei uma olhada nas colunas do Mauricio e são muito boas. Vou ler todas.

  2. Quero muito ler o novo livro. Fiquei muito impressionado com o Surpreendente. Achei um livro muito muito bom.

  3. As vezes eu estou lendo um livro e faço essa pergunta para mim mesma. Tem historias que nao pegam a gente de jeito. Achei interessante saber que o autor pode pensar a mesma coisa quando está escrevendo.

  4. Surpreendente me fez refletir muito sobre amizade. Me fez perceber que esse contato pessoal faz muita falta. Acabamos ficando acomodados por conta da facilidade que as redes sociais nos dá, em saber como está tal pessoa, se casou, se tem filhos, etc.
    Adorei o texto Gomyde, um beijo no coração.

  5. Ultimamente os livros tem tido o dom de me deixar intrigado porque tem muita história sem pé sem cabeça. Acho que não estou dando sorte e acabo sempre voltando para os clássicos. Gostei de saber que o Gomyde tem essa preocupação. Ainda não li o Surpreendente mas todo mundo fala bem. Se ele escreve pensando no leitor assim, é certo de que a pergunta do título não precisa ser feita ao longo da leitura.

  6. De verdade, sempre que estou tentando escrever e não sai é só dar uma passada pelas colunas do Maurício. A maneira que ele expõe como enxerga a escrita me inspira a ponto de eu conseguir exteriorizar aquilo que quero dizer. Muito obrigado.

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