Fernando Scheller

Há abismos entre o amor e o afeto

17 / março / 2016

original

Deitados tão próximos quanto humanamente possível, braços e pernas entrelaçados, Júlia e Inácio sabiam que era o fim. A noite caía devagar. O domingo estava quente e o apartamento espartano, quase sem móveis, tão vazio que as vozes ecoavam. Para guardar segredos era preciso sussurrar.

Em silêncio, quase nus, pensavam a mesma coisa: queriam ter dois ou três grandes amores na vida. Ela, porque, do alto dos seus vinte e três anos, tinha certeza de que Inácio era o seu primeiro amor. Ele, porque tinha certeza de que Júlia não tinha sido um deles. Há abismos entre o amor e o afeto.

Júlia sabia que Inácio sentia por ela um afeto especial. Talvez isso fosse suficiente para muita gente, mas, para ela, não. Por mais que o amasse, ao olhar-se no espelho, encarando seus olhos enormes e expressivos, pensava que merecia mais. Já havia deixado muito tempo passar.

O fato de Inácio simplesmente gostar dela era, na verdade, pior. Sentia-se comum. Esperava que isso mudasse, mas nada aconteceu. Em Júlia, ele despertava um sentimento único — e era exatamente o que ela queria dele.

Baby estava longe, a milhares de quilômetros de distância. Mas ali no escuro, com Júlia, era nela que Inácio pensava. Ele desconversava cada vez que alguém mencionava seu grande amor e, por respeito, jamais falou sobre ela para Júlia.

É claro que a namorada percebia que alguma coisa o mantinha distante, mas ele achava inútil, além de cruel, choramingar sobre o passado justamente com quem estava a seu lado. Baby, de alguma forma, também estava por perto. Lembrou-se daquele dia em que foram a Jacarepaguá de Fusca. Janeiro de 1980, tinha dezesseis anos. Recordar tão vividamente uma noite de oito anos antes era patético.

Inácio desejou desesperadamente que o silêncio fosse quebrado, ainda que não quisesse ser o primeiro a dizer qualquer palavra. O telefone poderia tocar se houvesse um aparelho no apartamento. Mas ele não tinha dinheiro para entrar na lista de espera da Telerj. Mal ganhava para pagar o aluguel e comer. Ficou quieto.

Júlia tinha dificuldade para dormir e costumava passar um tempo estudando o rosto de Inácio depois que ele adormecia. A cabeça dele pesava e pendia para o lado. A expressão ficava séria, como se estivesse pensando em algum problema de matemática. Ela sentia um aperto no coração enquanto ele dormia. Todo insone morre de medo de ficar sozinho.

A claridade da rua fazia sombras no rosto dele. Esperou cinco, talvez dez minutos, para tirar o braço preso sob o corpo de Inácio antes de afastar-se. Júlia lembraria aqueles minutos, o movimento da respiração no peito dele; a graciosidade dos poucos pelos no centro dos peitorais. Uma brisa morna vinha de fora. Sinal de chuva. Apressou-se em colocar o vestido branco — lembraria para sempre que era branco. Pensou que sofrer fosse ruim, mas sofrer encharcada seria demais. Tinha dinheiro que dava para pagar um táxi e chorar no colo da mãe.

Júlia reconstituiria inúmeras vezes os detalhes de sua fuga silenciosa: como tocou Inácio e sentiu os contornos de seu rosto com as pontas dos dedos, abriu a porta devagar para não fazer barulho, desceu quatro lances de escada com os tamancos de madeira nas mãos, tentou disfarçar o choro dentro do táxi e ignorou o gracejo do motorista.

Para Inácio, anos depois, o fim com Júlia seria um ponto indefinido. Jamais conseguiria lembrar se tudo teria sido fruto de uma discussão num bar — de fato, haviam se desentendido algumas semanas antes — ou se apenas decidiram ser bons amigos numa conversa amigável, que jamais existiu.

Caso se encontrassem aos quarenta anos, Júlia ficaria abalada mesmo que o tempo tivesse sido impiedoso com Inácio. Ele a encararia de forma generosa — como faz com todos — e provavelmente a acharia bonita, elogiaria suas escolhas profissionais e a família sólida construída. Trataria a ex com o afeto que se guarda por uma velha amiga. E, sem saber, a magoaria outra vez.

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Comentários

9 Respostas para “Há abismos entre o amor e o afeto

  1. Leve e lindo. Todos já tivemos amores que não nos amavam, para um dia se o destino quiser encontrarmos aquele que realmente nos ame…

  2. é muito lindo, o amor e o afeto acho que os dois caminham juntos.

  3. Que lindo. Gostaria de continuar lendo essa história , poderia se tornar um livro ♡ Parabéns ao autor descreveu exatamente como são essas situações .Infelizmente me identifiquei muito com a história.

  4. Que texto lindo, leve, doce e correto. Tão difícil achar uma leitura agradável e que nos complemente tanto hoje em dia… Adorável!

  5. Não se sabe ao certo se somente foi uma dor ou algum vazio que no momento não faz sentido. Um afeto que é recíproco, vira aconchego. Mas, um amor unilateral dilacera.

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