Leticia Wierzchowski

Duvido, logo existo

4 / março / 2016

Há uma hora na vida em que parte das nossas certezas se transformam em dúvidas. Nesse momento, quase tudo aquilo em que acreditávamos parece ter sua importância relativizada — outras vontades, outros sonhos, meros esporos invisíveis de futuros diversos parecem crescer dentro de nós, passeando pela corrente sanguínea, pelos sonhos e pesadelos, pelos mais distraídos pensamentos.

Há uma hora, para todo mundo, em que a própria vida cotidiana parece ter ficado pequena, como uma roupa da estação passada que é descartada do armário de uma criança por não servir mais. É uma hora difícil, como são difíceis os partos, com o tanto de sangue e mistério que guardam, com seus perigos, as superstições, o medo e o futuro cheio de novidades. É uma hora difícil — é preciso mexer-se do lugar, mudar a perspectiva, aventurar-se. É preciso fazer a bainha da nossa própria ansiedade, separar-se das velhas certezas e assumir a dúvida como guia.

Algumas boas certezas são fundamentais nesta vida; são como o alicerce sobre o qual erguemos nossa existência. Mas a dúvida tem que estar em algum lugar, latente sempre, atenta ao presente e ao futuro, duvidando, como um desses cães de guarda que passam a madrugada latindo no portão. Há um ditado que diz: “A chave da sabedoria é a dúvida.” Segundo meu médico pessoal, é duvidando que a gente vai adiante.

Muitos artistas fizeram da dúvida o ponto de partida da sua arte. Como Van Gogh, Robert Mapplethorpe, Bispo do Rosário e uma lista eclética de nomes de todos os tempos e lugares. Muitos autores escreveram belíssimos romances sobre a caminhada pessoal que a dúvida inaugura, como Somerset Maugham, em O fio da navalha, e o japonês Kenzaburo Oe — cuja dúvida e superação pessoal se materializaram na figura de um filho excepcional —, com seu inesquecível Jovens de um novo tempo, despertai — duas das grandes leituras da minha vida.

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