Leticia Wierzchowski

Amar não é acertar

10 / março / 2016

O mundo anda com uma mania de perfeição que venho achando muito rasa. Penso nisso toda hora. Não estou falando de política — Deus me livre trazer este assunto à baila por aqui. Estou falando de relacionamentos. Mães e filhos, namorados, cônjuges, amigos, relações familiares em geral.

Parece que tudo precisa ser perfeito. Assim como sentir tristeza hoje em dia virou uma espécie de doença, errar também virou sinal de desamor.

É claro que acertar é bom. Todos queremos ser os melhores pais do mundo, os melhores companheiros, os melhores amigos, amantes e irmãos. Os mais engraçados, leves, sinceros, sexys e justos. Mas toda relação — baseada no amor ou na amizade — está sujeita a escorregões e tombos. Porque a constância, a presença cotidiana, os anos, as transformações e as turbulências pelas quais cada um de nós passa ao longo desta vida, tudo isso exige uma série constante de ajustes. E ajustar aperta, pinica, dói às vezes. Ajusta-se o que está errado, o que mudou de tamanho mas ainda serve, vale a pena.

Mães erram com seus filhos toda hora. Mesmo tentando fazer o melhor, erramos. Erramos cotidiana e constantemente, erramos cheias de amor. Casais são injustos uns com os outros todos os dias. Sadios são aqueles que conseguem, depois de um perrengue qualquer, respirar fundo e começar de novo, zerando as mágoas e as minúsculas injustiças cotidianas.

Hoje, as contas se acumulam nos relacionamentos. E aí, quando a fatura está no vermelho, é hora de tocar adiante. Troca-se o par, contas zeradas, e o jogo começa outra vez da casa 1 do tabuleiro. As relações familiares, nesse ponto, suportam mais os dissabores — ninguém pode trocar de mãe, pai e irmão a cada quatro anos. De um modo ou de outro, as famílias se aturam, já que não tem jeito mesmo. Mas quantas vezes a gente vai dormir se sentindo péssimo — afinal, no calor do afeto, erramos com alguém? Só erra quem tenta. E tentar é amar. Hoje em dia, todo erro é visto como defeito. Discordo disso. Enquanto tentamos, estamos presentes. Enquanto estamos presentes, é sinal de que existe o amor.

Afinal, amar não é acertar. Amar é tentar.

E, ao errar, tenta-se de novo.

Sempre.

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Comentários

2 Respostas para “Amar não é acertar

  1. Exato. Só não pode interpretar isso como desculpa pra ficar com pessoas que erram por indiferença e continuam errando e te fazem mal. Amor é empatia. É cuidar do outro.

  2. Muito bom, um texto bastante reflexivo, nos faz pensar das relações que construímos com os outros, passamos por tantos perrengues na vida que só nos resta depositar uma confiança absurda no outro, confiança nem tão saudável, porque esperamos apenas o melhor, não admitimos “erros”, mas como Letícia trouxe atenção o amar é tentar, é se esforçar, não desistir.

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