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A zumbificação de Jane Austen

1 / março / 2016

Por Alexandre Sayd*

Inglaterra, início do século XIX. Na propriedade de Longbourn a única preocupação da Sra. Bennet é conseguir o melhor casamento possível para cada uma de suas cinco filhas. Mas há um detalhe importante: há pouco mais de 50 anos uma estranha praga se abateu sobre o país de Sua Majestade, fazendo zumbis se levantarem dos túmulos e causando profundas transformações sociais.

As cinco filhas da Sra. Bennet, por exemplo, são exímias matadoras de “não mencionáveis” (os famigerados zumbis), tendo passado anos na China aprendendo com monges Shao Lin o domínio das artes mortais — prática bastante comum entre as famílias que dispõem de recursos. A diferença é que as famílias realmente abastadas preferem enviar seus filhos para treinar com ninjas no Japão e torcem o nariz para o “treinamento inferior” dos chineses que as irmãs Bennet receberam.

1996480.jpg-r_x_600-f_jpg-q_x-xxyxxOrgulho e Preconceito e Zumbis, de Seth Grahame-Smith, é exatamente o que o título sugere: o mais conhecido romance de costumes de Jane Austen acrescido de mortos-vivos devoradores de cérebros. A ideia parece disparatada à primeira vista, mas o acréscimo não vem apenas para trazer humor à história. Leva a brincadeira mais longe, imaginando como a Inglaterra vitoriana realmente reagiria ao surgimento de zumbis e fazendo com que as cenas de ação exageradas, como as em que Lizzy Bennet decapita não mencionáveis com sua adaga, sirvam para destacar ainda mais os conflitos socioculturais da época. Pois se não é fácil combater sozinha uma dúzia de zumbis, imaginem a dificuldade de fazer isso sem nem mesmo sujar o vestido. Em contrapartida, nada como recusar um pedido de casamento dando um chute na cara do pretendente.

Entre as transformações trazidas com a praga, há um esforço de guerra contra os mortos-vivos, que insistem em se levantar com mais frequência numa região ou noutra da Inglaterra. Assim muralhas são erguidas novamente para a defesa de Londres — a cidade passa a ser separada em setores que refletem a divisão anterior entre as áreas mais ricas e mais pobres da capital, reforçando mais uma vez o caráter social da obra. A troca de correspondências é assídua e constante entre os personagens, mas as missivas frequentemente se atrasam devido a algum ataque zumbi aos veículos dos correios.

Fãs da obra original poderão revisitar Pemberley, a suntuosa mansão da família Darcy — agora com o estilo arquitetônico de um palácio de Kyoto — e observar os embates entre Lizzy e Lady Catherine de Bourgh não somente na mesa de chá, mas também em um dojo, armadas com katanas. Mesmo destacando os desafios de uma mulher na sociedade, o livro dá às personagens femininas “dotes” literalmente mortais que as tornam, no mínimo, menos indefesas. Nas palavras de Lydia Bennet “a virtude na mulher é removida com a mesma facilidade que uma peça de roupa. Basta um passo em falso para ocasionar ruína para sempre. E o único remédio para a honra ferida é o sangue de quem a profanou”. A existência dos zumbis ainda leva a finais diferentes para alguns personagens, garantindo saborosas surpresas para os leitores de Austen.

Não é necessário, no entanto, sequer conhecer o livro de Jane Austen para ler a obra de Grahame-Smith, e aqueles leitores mais interessados nos zumbis do que em Orgulho e Preconceito provavelmente vão se espantar ao se descobrirem prendendo a respiração com o suspense de diálogos cheios de sutilidades e insinuações durante um jantar. Pois, independentemente de todas as mudanças, o foco da história se mantém na complexidade e nas sutilezas dos relacionamentos entre os personagens.

Apesar de todas as alterações na trama ainda nos vemos, inevitavelmente, torcendo para que Lizzy, com seu gênio difícil, acabe se entendendo com o Sr. Darcy, e o fato de que na nova versão ambos são guerreiros orgulhosos, com noções de honra aprendidas com mestres orientais, dá ainda mais fôlego a esse conflito. Com nervos “testados no fragor de muitas batalhas”, Lizzy ainda vai se ver “desconcertada diante de seu próprio desequilíbrio emocional”. Esse contraste entre força e fragilidade, entre a realidade e o absurdo do cenário, é que dá novo sabor à história e a torna tão interessante.

RAZAO_E_SENSIBILIDADE_E_MONSTROS_MARINHO_1302821658BHerdeiros dos fanfics, os chamados mash-ups são livros compostos pela associação de obras clássicas de grande importância a elementos insólitos, normalmente relacionados à literatura de horror. Orgulho e Preconceito e Zumbis é um dos pioneiros nesse gênero e seu sucesso foi seguido por outras obras como Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos, Android Karenina e Queen Victória: Demon Hunter.

Orgulho e Preconceito e Zumbis esteve na lista dos livros mais vendidos do jornal The New York Times e recebeu boas avaliações da crítica especializada, se beneficiando tanto do interesse duradouro dos leitores no trabalho de Jane Austen quanto do fato de zumbis estarem na moda. Devido ao sucesso do livro, a obra ganhou uma versão cinematográfica, dirigida por Burr Steers (17 outra vez) e estrelada por Lily James (Cinderela), Elizabeth Bennet e Sam Riley (Malévola), com lançamento previsto para 4 de fevereiro.

Seth Grahame-Smith é um escritor, roteirista e produtor de cinema mais conhecido no Brasil pelo roteiro do filme Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros, baseado no livro homônimo, também de sua autoria. Ele é cotado para escrever as sequências de Beetlejuice e Gremlins.

Conheça Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos

 

*Alexandre Sayd é jornalista e leitor voraz de fantasia e horror.

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Comentários

2 Respostas para “A zumbificação de Jane Austen

  1. Olá, não temos previsão de lançar o título.

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