Bastidores

A outra revolta

31 / março / 2016

Por Roberto Jannarelli*

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No dia 29 de abril de 1992, três policiais de Los Angeles foram absolvidos em um polêmico julgamento no qual foram acusados de subjugar com violência um taxista negro chamado Rodney King. O júri não considerou o ato como abuso de força. Há provas claras. Hoje podemos encontrar o vídeo do espancamento com uma busca no Google. São imagens fortes, não recomendo a visualização. Mas na época parte do vídeo foi exibida na mídia, e, como resposta à absolvição, as pessoas foram à rua e a cidade implodiu em uma das mais violentas revoltas populares já vistas. Durante seis dias, Los Angeles ardeu em chamas. Literalmente.

Esta revolta é o cenário de Todos envolvidos, lançamento de ficção da Intrínseca do mês de março. O autor, Ryan Gattis, usou esta história como inspiração para falar não sobre esta, mas outra revolta. Ao pesquisar sobre o assunto, ele descobriu que gangues latinas da Califórnia aproveitaram o momento em que as atenções estariam voltadas para a luta do povo contra a força policial e que não haveria policiamento suficiente em todos os lugares ao mesmo tempo. Algumas áreas inevitavelmente ficariam sem nenhuma assistência, e isso era o contexto perfeito para uma série de acertos de contas entre os membros das gangues. Eles perceberam enfim que durante a revolta do caso Roney King não haveria lei em Los Angeles.

211319todosenvolvidosRyan Gattis analisou as estatísticas: 10.904 prisões, mais de 2.383 pessoas feridas, 11.113 incêndios, mais de 1 bilhão de dólares em danos a propriedades e sessenta mortes foram atribuídas às revoltas. Estudando mais a fundo, o autor descobriu que o número de mortes não levava em conta vários assassinatos ocorridos em regiões periféricas às dos conflitos. Ou seja, possivelmente os acertos de contas das gangues foram negligenciados pelo status quo (vamos guardar esse termo). Eles foram considerados “normais”, como se não fizessem parte de todo o contexto de ódio que tomava a cidade. Essa é a história de Todos envolvidos.

Ryan Gattis criou uma obra de ficção inspirada em acontecimentos reais. Este é um recurso na ficção que, curiosamente, anda ocupando bastante espaço na minha rotina de trabalho. Antes de Todos envolvidos eu havia trabalhado em O regresso , ficção inspirada na história de um caçador americano em 1822. Em geral, quando trabalho em livros desse tipo, a primeira coisa que faço é estudar um pouco o contexto histórico a que se refere.

Posso dizer que me senti mais próximo do livro de Gattis, já que, por mais que às vezes me sinta com 600 anos de idade, pouco sabia sobre as caçadas no oeste norte-americano no século 19. Me lembrar de 1992, quando tinha sete anos, foi bem mais fácil. Recordei, por exemplo, que 1992 foi o ano em que Bill Clinton foi eleito dono do mundo, quero dizer, presidente dos Estados Unidos, vencendo nas urnas George H. W. Bush, quem o meu exagero adolescente consideraria alguns anos mais tarde o pior presidente americano de todos os tempos. O jovem Roberto claramente não fazia ideia do que a família Bush ainda poderia fazer.

Aqui no Brasil, 1992 foi o ano do impeachment do presidente Fernando Collor, e o jovem Roberto com muita inocência achou que não viveria o suficiente para ouvir falar nessa palavra de novo (mas por favor não vamos entrar nesse assunto). O referido ano também tem uma lembrança muito particular para mim, pois foi nele que o astro de basquete Magic Johnson, um dos ídolos do jovem Roberto, disse ao mundo que tinha contraído o vírus HIV, o que por si só já poderia ser traumático para uma criança, mas o que veio a traumatizar de fato o garoto foi a conversa sobre o assunto que ele teve com a Dona Lúcia, sua mãe, que, coitada, teve de responder a muitas perguntas sobre como as pessoas pegavam essa doença. Posso dizer que nem todas as respostas resultaram em boas lembranças.

Mas vamos deixar minhas memórias de lado e nos concentrar no livro.

Depois de estudar um pouco sobre o mundo das gangues e a Califórnia em 1992, mergulhei de cabeça no livro. No caso deste, é conveniente mergulhar com colete à prova de balas, capacete de chumbo e qualquer outro tipo de proteção em que você acredite. Gattis descreve a guerrilha urbana de modo que o leitor se sinta nela. Ouvindo o estouro de bombas e o zunido de balas. É assustador e ao mesmo tempo incrível.

A pesquisa ajudou na construção da linguagem dos personagens, dando ao livro um estilo muito peculiar. O próprio original estrangeiro tem um glossário no final com muitas das gírias usadas pelos personagens para orientar o leitor em caso de dúvida. Então, o que fizemos na nossa edição foi adaptar o glossário para a nossa realidade. Traduzimos algumas dessas expressões, mas em outras optamos pelo termo em espanhol ou inglês para não perdermos a ambientação criada pelo autor. Algumas delas, como “original gangster”, eu já conhecia de filmes e séries, e também de uma música do Ice T. Mas, por mais que compreendesse a ideia, só pude entender o real sentido da expressão ao trabalhar no livro e lançar mão do glossário.

Outro ponto interessante são os personagens, que são muito fortes. Em outro texto de bastidores do blog da editora, a extraordinária Nina Lopes escreveu que quando trabalhamos com livros os personagens são muitas vezes nossos amigos mais próximos por um determinado tempo e também que somos muito exigentes quanto a isso. A Nina está certíssima e eu acho que nunca conseguiria dizer isso tão bem quanto ela.

No caso de Todos envolvidos, são 17 narradores contando a história, cada capítulo por um ponto de vista. E o autor entrelaça muito bem esses relatos, fazendo com que o narrador de um capítulo apareça despretensiosamente na história de outro. Uma mistura de Sin City e Pulp Fiction, com um clima meio Cidade de Deus.

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Bem, é verdade que desses 17 amigos-narradores alguns acabaram me decepcionando quando, bem, dirigiram jogando coquetéis molotov pela janela e incendiando a cidade, ou quando armaram uma cilada para pegar o Ernesto, um cara legal que só queria viver sossegado e perseguir seu sonho, que era ser chef de cozinha. Pobre Ernesto. A irmã dele, Payasa, está envolvida no mundo das gangues e também é uma personagem fascinante. Ela é forte e carismática como as grandes personagens femininas da literatura. O bombeiro Anthony também se tornou um amigo, e, sem dar spoiler, posso dizer que torci para que ele e a enfermeira Gloria se entendessem. Gloria é muito sensível e passa uns maus bocados no hospital em que trabalha. Também levei comigo o brother Termite, um cara que ama música e fica o tempo inteiro com seu walkman tentando não ouvir os ruídos da guerra. Sobre isso, pensei duas coisas:

Primeiro, walkman — obrigado por essa lembrança Ryan Gattis. Segundo, quando o Termite opta por andar pela rua com os fones no ouvido, sua mixtape girando na bobina do walkman, eu penso que isso é uma bela representação do que nós fazemos na vida real. Metaforicamente, colocamos nosso fone para não ouvir e fingir que a guerrilha urbana não está acontecendo, não é verdade?

Não sei se o autor pensou nessa alegoria, mas arriscaria dizer que sim, porque construindo esse personagem ele mostra com maestria como uma pessoa que está inserida nesse sistema, que está envolvida, pode ter o ímpeto de ignorar a guerrilha, como nós fazemos, mas simplesmente não pode. Não existe essa opção. A guerrilha urbana não é uma linha traçada paralela à vida do Termite; ela é uma linha vermelha de sangue traçada sobre a vida dele.

Por causa desse personagem eu também criei minhas mixtapes em casa. Ouvi bastante Rage Against the Machine, banda que gosto tanto e tem tudo a ver com o clima de Todos envolvidos. Engajada, bruta, grave e com sotaque mexicano. Em outros momentos me dei conta de que estava com “Gangsta’s Paradise”, do rapper Coolio, na cabeça e morri de rir quando percebi que sabia boa parte da letra de cor.

Me lembrei de alguns rappers que fizeram sucesso na década de 90, como Ice T e Tupac (ou 2pac, até hoje não sei como esse cara assinava). Descobri que “April, 29th, 1992 (Miami)”, do Sublime, outra banda que já ouvi muito, é inspirada nas revoltas do caso Rodney King. E, apesar de a letra ser bem clara, eu não sabia até ler esse livro, e gostaria de agradecer ao Termite por isso.

Bem, retomando o que a Nina falou no texto dela, queria acrescentar uma coisa. Quando falamos em personagens dos livros, não falamos só de pessoas. Claro, pode ser um gato, um cachorro. Ou até mesmo um lugar, como em Todos envolvidos. A cidade em chamas é o principal personagem da história, mesmo caótica e totalmente subvertida. Lembra daquela expressão que pedi para guardarmos lá no início do texto? Status quo. A cidade em chamas é a força do povo contra esse status quo opressivo. E o livro de Ryan Gattis é uma incrível manifestação de como é bom quando a literatura também se realiza como essa força subversiva.

*Roberto Jannarelli é editor assistente de ficção e não ficção estrangeiras da Intrínseca, adora música e joga basquete nos finais de semana, mesmo que hoje em dia os finais de semana aconteçam de 365 em 365 dias.

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