Leticia Wierzchowski

Verdadeira história de pescador

18 / fevereiro / 2016

Estive no médico dia desses. O doutor, mapeando meu passado, quis saber se eu ainda tinha os avós vivos e, se não os tinha mais, qual havia sido o motivo da mortes e em que idade haviam falecido. Fiquei ali alguns minutos rememorando as desditas familiares (meus quatro avôs já se foram), e por instantes me senti traçando as linhas gerais de um romance. Fui embora um pouco pesarosa de saudade.

Meu avô materno morreu aos 65 anos. Minha avó materna, não conheci — morreu antes do casamento dos meus pais e deixou aura de “santa”, como todas as pessoas que morriam cedo antigamente. Minha avó paterna era uma senhora que viu de tudo neste mundo até morrer, por engano, aos 87, quando baixou no hospital para fazer exames e uma enfermeira desatenta ministrou-lhe o remédio da paciente da cama ao lado. Nisso eu já era moça e me lembro bem do desconsolo ¾ a avó Maria certamente chegaria aos 100.

Meu avô paterno era catarinense e tinha um nome que sempre me evocou fantasias: Bertuíno. Apesar do nome que faz lembrar aqueles homens do deserto, nada tinha de brutal ou selvagem. Ao contrário, era calado, custando para cuspir uma palavra, mas olhava o mundo com olhos meio tristes. Gostava mesmo era de pescar, e foi pescando que teve a premonição de que iria morrer no inverno seguinte.

Bertuíno pescava de tarrafa, aquelas redes circulares que se lançam à mão. Todo verão, no fim de março, ele chamava um dos netos e dizia: “Meu filho, pegue esta tarrafa pra ti; o avô está velho e não passa deste inverno.” No verão seguinte, estava o avô outra vez, e sem tarrafa ¾ lá se ia meu pai a comprar-lhe outra para as pescarias. Foi assim durante muitos anos. O avô Bertuíno chamava um neto e passava adiante a rede porque estava velho, e, para ele, tempo de velho morrer era no inverno. Distribuiu fartamente suas tarrafas, pois tinha dezenas de netos dos seis filhos que fez na mulher — eram sete, mas um deles, em criança, afogou-se num açude.

Numa pescaria noturna, no fim de um verão, uma veia se lhe rebentou dentro do nariz e ele prosseguiu pescando, pescando, enquanto seu sangue se esvaía no escuro e tingia o mar. O avô, depois de muito sangue perdido, caiu na água sem sentir e foi levado ao pequeno hospital praiano, onde, já em estado de choque, recebeu precário atendimento. Não iria morrer ali, mas aquele foi o começo de sua morte. Para um velho pescador, tinha lá seu encanto, derramar o sangue no mar… Ele morreu alguns anos depois, num começo de outono. Depois de tantos verões, não teve decerto paciência de esperar a chegada de outro inverno.

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