Clóvis Bulcão

Os Guinle e o carnaval de rua

4 / fevereiro / 2016

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O carnaval de rua no Rio de Janeiro antigamente (fonte)

Este ano vou passar o carnaval na avenida, ou seja, estarei os quatro dias de folia no Sambódromo do Rio. As rádios MEC, Nacional e Roquette-Pinto me chamaram para atuar como comentarista e por isso participarei da transmissão do evento das rádios públicas cariocas. Não sou um homem de carnaval, mas fui obrigado a estudá-lo para escrever Os Guinle.

Quando o livro foi lançado, muitos leitores se surpreenderam com o envolvimento dessa família de milionários com a cultura popular. Arnaldo e Carlos financiavam sambistas que, no início do século passado, não gozavam de boa reputação justamente por serem artistas do povão. Já o elegante e sofisticado Octávio, dono do Copacabana Palace, ajudou a transformar o carnaval carioca na maior festa popular do mundo.

Transcrevo aqui um trecho do livro: “Em janeiro de 1932, [Octávio] foi convidado a integrar a Comissão Executiva de Organização do Carnaval Carioca, que aconteceria em fevereiro. Não houve tempo hábil para muitas mudanças, mas, pela primeira vez na história da cidade, o evento foi pensado de forma pragmática, seguindo a tese de Octávio Guinle: ‘O carnaval é uma fonte de riqueza pública, como sãos os lagos e as montanhas suíças, as ruínas das civilizações extintas na Itália, e assim por diante’.” Segundo o jornal A Noite, naquele ano o carnaval “assumiu aspectos inéditos de brilhantismo e animação”.

No ano seguinte, o prefeito Pedro Ernesto convocou Octávio mais uma vez. E o resultado não foi diferente. Conforme descrevi em Os Guinle, “a avenida Rio Branco foi decorada e no sábado de carnaval, dia 25 de fevereiro, foi fechada para o desfile de blocos. Banhos de mar a fantasia foram organizadas na ‘linda praia de Ramos’, na Zona Norte, houve ‘prélios de serpentinas na rua 28 de Setembro, em Vila Isabel, baile infantil no Teatro João Caetano, no Centro, batalha de confete, ma rua Carlos de Vasconcellos, na Tijuca. Em homenagem a Lamartine Babo, escola de samba desfilaram na praça Onze e os bailes nas ruas Maxwell, Bela, Santa Luzia, 24 de Maio, José Higino, São Clemente e Gonzaga Bastos’”.

Para quem não é do Rio de Janeiro, vale a seguinte observação: as escolas de samba ainda hoje desfilam na praça Onze, e no sábado de carnaval a avenida Rio Branco sempre foi interditada ao trânsito, até ser fechada, em 2015, para obras. Na avenida Sapucaí, os Guinle serão lembrados de modo indireto este ano, pois a escola de samba Grande Rio vai homenagear a cidade de Santos (SP), cujo porto, o maior do Brasil, foi construído pelos Guinle. O patrocinador da agremiação, curiosamente, é o atual gestor do porto santista. Entretanto, na sinopse do enredo da Grande Rio os Guinle não são mencionados. Será possível contar a história de Santos sem falar nessa família?

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