Clóvis Bulcão

Nossos governantes e seus parentes

29 / fevereiro / 2016

Getúlio-Vargas familia

Getúlio Vargas e seu pai, Manuel do Nascimento Vargas (fonte)

Em tempos de calorosos debates sobre a vida privada de ex-dirigentes do Brasil, vale lembrar que esse tipo de situação remonta aos primeiros anos de nossa história. D. Pedro I, o homem que nos livrou do julgo do colonizador português, em 1822, vivia cercado de problemas de ordem pessoal.

Nosso primeiro imperador, no ano de 1826, enfrentava uma grave crise de popularidade. Um dos motivos era a guerra de independência da província Cisplatina, atual Uruguai. Além de ter um custo financeiro elevado, o conflito coincidiu com o auge da paixão de Pedro pela amante, Domitila de Castro. O Imperador estava tão envolvido com ela que nem dormia mais no palácio da Quinta da Boa Vista, o que também tinha um reflexo negativo para sua imagem.

Esses fatores levaram Pedro a liderar as tropas do Brasil no Rio Grande do Sul. A tática não deu muito certo, uma vez que perdemos a guerra e a casa de sua amante foi apedrejada após a morte da imperatriz Leopoldina, em 1826.

Já no século XX, o governante que mais sofreu entreveros causados por problemas da vida privada foi Getúlio Vargas. É bem verdade que nenhum outro governante republicano ficou tanto tempo no poder — no total, foram dezoito anos.

Em meu último livro Os Guinle, conto, numa passagem emblemática, como o irmão do presidente, Benjamin Vargas, conhecido como Beijo, se aproveitava do fato. Assíduo frequentador de cassinos, o chefe de segurança do Catete — à época, palácio presidencial — gostava de colocar seu enorme revólver sobre a mesa de jogo para intimidar os crupiês. Beijo fazia isso sem nenhum pudor, pois, entre 1937 e 1945, o país era governado de forma ditatorial e a imprensa não podia noticiar esse tipo de acontecimento.

Situações como essa, no entanto, só serviram para, mais tarde, reforçar a tese de que a família Vargas se locupletava do poder de Getúlio. Algum tempo depois, já no período democrático, em 1954, o Brasil estava mergulhado em uma grave crise. O maior adversário político de Getúlio, Carlos Lacerda, fora vítima de uma tentativa de assassinato ao chegar em casa no episódio conhecido como “O crime da rua Tonelero” e que vitimou seu segurança, o major Vaz.

As investigações logo apontaram para Gregório Fortunato, chefe de segurança da guarda presidencial e gaúcho de São Borja, como Vargas. Havia ainda um agravante: Gregório, homem muito simples, era dono de uma incomensurável fortuna. No entanto, o mais contundente para Vargas foi saber que seu filho Maneco Vargas vendera uma fazenda no Rio Grande do Sul para Gregório. Não fazia muito sentido que Gregório, com salário de apenas 4 mil cruzeiros, adquirisse uma propriedade de 1,32 milhão. Ao se inteirar da situação, Getúlio teria dito: “Debaixo do Catete há um mar de lama.”

Por essa razão, pode-se afirmar que político brasileiro que se defende dizendo que vida privada é uma coisa e vida pública é outra só pode ser visto como um ignorante em termos de história do Brasil.

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