Clóvis Bulcão

Ligado ao presente, antenado no futuro

15 / fevereiro / 2016

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Durante a grande depressão americana, ninguém poderia imaginar que os Estados Unidos seriam a maior potência do mundo. (Fonte: Life)

No ano de 1933, em Buenos Aires, o poeta espanhol Federico García Lorca esteve com o escritor argentino Jorge Luis Borges. Foi o primeiro, e único, encontro entre eles. Os dois tiveram uma discussão sobre quem seria o personagem que simbolizaria os Estados Unidos. O sisudo Borges argumentou que poderia ser o ex-presidente Abraham Lincoln ou o escritor Edgar Allan Poe. Irreverente, Lorca, que se definia apenas como “um andaluz profissional”, decretou: é o Mickey Mouse. Borges ficou tão decepcionado com a escolha do personagem de desenho animado, que se levantou, foi embora e passou a acusar Lorca de farsante.

No início da década de 1930, os Estados Unidos estavam longe de ser o império político e econômico dos dias de hoje. O país estava afundado em uma de suas maiores crises econômicas, provocada pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. Portanto, não era óbvio para ninguém que os americanos tirariam dos europeus, em especial dos ingleses, franceses, alemães e italianos, a supremacia econômica e cultural. A América do Norte só se tornaria uma potência inconteste após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

E quando será que, ao longo da primeira metade do século XX, ficou claro que os Estados Unidos seriam o império do futuro? Quem fez a melhor análise de seu tempo, Borges ou Lorca? O escritor Edgar Allan Poe, o mestre da literatura de terror, viveu em meados do século XIX. Ele deve muito da sua fama internacional aos franceses. Fez sucesso na Europa, em especial na França, graças às versões de seus contos feitas pelo poeta Charles Baudelaire. Será mesmo que Poe é, ou já foi, um símbolo da cultura americana?

O Mickey Mouse, personagem cem por cento americano criado por Walt Disney, estreou no cinema em 1928. E não foi uma estreia trivial: pela primeira vez se lançava um desenho animado sonorizado. Quem então teria feito a melhor avaliação sobre os Estados Unidos: Borges, com Poe; ou Lorca, com Mickey?  Uma coisa é certa, quem conseguiu antever que os Estados Unidos seriam a maior potência da segunda metade do século XX obteve algum tipo de vantagem.

Os Guinle, por exemplo, se aproximaram da América do Norte em 1901. Eduardo Guinle, o primogênito do casal Eduardo e Guilhermina, foi estudar em Nova York e, ao regressar para o Brasil, trouxe a representação de algumas empresas estratégicas: General Electric, de material elétrico; RCA Victor, gravadora de discos; e a American Locomotive, do setor de transportes. Uma opção que seria óbvia nos dias de hoje, mas que, naquele tempo, foi uma aposta visionária em um país que não tinha nenhuma tradição em desenvolvimento tecnológico. Tanto que o grupo americano Light, arquirrival dos Guinle na fabricação de energia elétrica, usava equipamento comprado da Siemens, uma empresa alemã.

Ao longo do século XX, poucos foram capazes de perceber em que ponto o passado terminava e o futuro começava. Aqui no Brasil, os Guinle foram protagonistas na construção do futuro.

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