Maurício Gomyde

Contadores de histórias

3 / fevereiro / 2016

Roller Coaster - Unsplash (1)

(Imagem via unsplash)

Todo mundo é contador de histórias. Em situações as mais diversas possíveis, quando duas pessoas se encontram e uma vai narrar um fato para a outra, por mais banal que seja, estamos diante de uma situação de contação de história. Isso acontece desde que o mundo é mundo. Há inscrições rupestres com mais de 30 mil anos que trazem homens segurando lanças e enfrentando grandes animais. Provavelmente, ao redor de uma fogueira, um homem pré-histórico contou sua aventura para os integrantes da tribo. Entretanto, a respeito disso sempre poderá ser feita uma pergunta: o que diferencia um bom de um mau contador de histórias?

Imaginemos aqui uma simples situação. A filha entra em casa no fim do dia, deixa a mochila no quarto, lava as mãos, senta para comer e, então, quando a mãe está passando na cozinha, ela diz: “Mãe, hoje no ônibus um homem entrou e gritou ‘mãos ao alto’. Começou a roubar todo mundo, e uma senhora grávida, com um neném no colo, passou a chorar. Ele ficou com pena e não roubou dela; desceu rapidinho. Mesmo assim, foi o maior alvoroço.”

Agora, se a mesma filha gritasse, ao pisar em casa: “Mãe, eu precisoooo te contar uma coisa. Senta aqui. A senhora não imagina o que aconteceu hoje quando eu estava indo pra escola. Mãe, todo mundo tranquilo no ônibus, coisa e tal. Do nada, o ônibus freou e entrou um homem encapuzado, com um revólver na mão. Nossa, ele deu um berro ‘Mãos ao alto!’ e… Mãe, quase tive um treco. Ele tava roubando geral, maior alvoroço. Só que, de repente, uma mulher grávida, com um neném no colo, começou a chorar e o ladrão não sabia o que fazer e… Meu Deeeeus, tô tremendo até agora…”.

A diferença é nítida. Há pessoas que têm a habilidade de agarrar o ouvinte pelo pescoço só com a boa utilização das palavras, o encadeamento dos fatos narrados e a mudança de entonação em cada pedaço da história. Por outro lado, há seres capazes de fazer até uma estátua bocejar. Sempre recomendo, a quem decidir contar uma piada, que pense nela inteira antes de iniciar. Porque não há nada mais triste do que ouvir: “O Joãozinho foi pra escola e… Não, não era escola, era clube, e… Não, não era Joãozinho, era Pedrinho. Então ele disse… Peraí, o que foi mesmo que ele disse?” Isso é a morte para o ouvinte e, consequentemente, para o sujeito como piadista.

Num livro acontece mais ou menos a mesma coisa. A história que provavelmente vai agarrar o leitor pelo pescoço será aquela em que o escritor teve habilidade para encadear bem os capítulos, mudar a “entonação” entre as partes, criar tensões e relaxamentos, encaixar pontos de virada inesperados. Dificilmente uma história sem grandes altos e baixos vai segurar o leitor até o fim. Gosto da imagem da montanha-russa. Não há nada mais emocionante numa montanha-russa do que os segundos que antecedem a queda. A queda, em si, é o momento de gritaria, e o leitor não tem muito tempo para pensar. Mas naqueles instantes que a precedem, o coração acelera, a respiração prende, e ele invariavelmente se pergunta: “Que diabos estou fazendo aqui? Por que não estou ali embaixo no carrossel?” Então, a queda acontece e logo começa nova subida. O leitor se ajeita na cadeira e se prepara outra vez para o que virá.

Seja uma história de suspense, crime, amor e paixão ardente, seja um drama, um sick-lit ou mesmo um chick-lit, o bom contador de histórias nos tira o chão quando menos esperamos, utilizando um jeito forte, engraçado, triste ou emocionante de relatar. Como leitor, é isto o que espero: que meu fôlego seja tirado. Quanto mais subidas e quedas da montanha-russa, melhor.

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Comentários

3 Respostas para “Contadores de histórias

  1. Humor refinado, sempre uma lição interessante sobre escrita. Adorei.

  2. Acho as colunas do Maurício deliciosas. Ele está se tornando meu contador de histórias favorito.

  3. Maurício, tua coluna é a melhor! Tua escrita é demais! Aguardo ansiosa pela tua próxima escrita, pela tua próxima história, pelo teu próximo livro!

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