Maurício Gomyde

Sobre minha escrita – Personagens

27 / janeiro / 2016

Histórias são sempre sobre alguém fazendo alguma coisa. Às vezes, a coisa pode até ser o tema central, mas o que proporcionará a emoção da leitura é o tanto que aquele alguém foi modificado por essa coisa. Um épico sobre uma guerra nunca será apenas acerca do conflito armado, mas de como a vida de determinada pessoa foi alterada por seus horrores. Um romance a respeito de um desencontro não terá impacto se não percebermos a sutileza de quanto aquele desencontro afetou quem se envolveu. Uma trama policial nunca vai somente relatar um crime, mas de que maneira o evento subverteu a forma de as pessoas implicadas passarem a enxergar o mundo.

Por isso, o elemento mais importante de uma história é o personagem. Nós, leitores, estamos sempre em busca de personagens fortes e inesquecíveis. Por eles vamos nos afeiçoar e torcer. Desejaremos viver suas aventuras e nos reconhecer em suas atitudes. Daremos risada, choraremos, odiaremos e xingaremos quando merecerem. E, quando fecharmos o livro, provavelmente ainda teremos bons sonhos, como se fossem reais.

Gosto, particularmente, daquele personagem que o escritor pouco descreveu fisicamente. Quero conhecê-lo por seus propósitos, suas ações, seus sentimentos e suas escolhas. A menos que seja fundamental saber que seus olhos são verdes, caso isso tenha importância no rumo da história, prefiro tirar minhas próprias conclusões sobre o quão marcante seu olhar pode ser. Também gosto de personagens que trazem conflitos aparentemente insolúveis. Quanto maior o “grau de dificuldade” em sair de uma situação, mais empolgante ele costuma ser.

Sempre entro na escrita de um romance com foco nisso. Quem será meu personagem? O que ele vai fazer? De onde vem e para onde vai? Qual é seu passado? Que problema tem de resolver? Qual evento exterior vai afetar seu interior, a ponto de transformá-lo e isso influenciar outras pessoas ao redor? Pedro, em Surpreendente!, e Vinícius Becker, em A máquina de contar histórias, trouxeram tais perguntas em sua composição.

Desde que me tenho por gente, personagens da literatura vêm ajudando a costurar a colcha de retalhos da minha vida de escritor e ser humano. Não escondo que invejo a enorme capacidade de muitos colegas autores para compor personagens memoráveis e atemporais. Imagino como seria perfeito se eu pudesse um dia pagar uma bebida a alguns desses personagens, para passar uma tarde inteira ouvindo-os discorrer sobre suas experiências. Em alguns casos, até descobrir o que aconteceu tempos depois do ponto final de suas histórias.

Finalizo o texto trazendo a seleção dos dez personagens para quem eu realmente gostaria de ter pagado uma bebida — chá, chope, refrigerante, hidromel ou uísque, dependendo do caso: Holden Caulfield (O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger); Rob Fleming  (Alta fidelidade, Nick Hornby); Hercule Poirot (de vários livros de Agatha Christie); Capitu (Dom Casmurro, de Machado de Assis); James Bond (de vários livros de Ian Fleming); Hazel Grace (A culpa é das estrelas, de John Green); Frodo (O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien); Auggie (Extraordinário, de R.J. Palacio); Alice (Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll); e, por fim, Dom Quixote (O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes).

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Comentários

4 Respostas para “Sobre minha escrita – Personagens

  1. Eu amo o Maurício. Tudo o que ele escreve. Essa série sobre a escrita está muito boa.

  2. Palmas, sempre. Quarta feira virou obrigatorio vir aqui. Se eu pudesse eu queria pagar um chá quente para Mr. Darcy hehehe

  3. Acho que os personagens são sim a parte mais importante das história. Quando fecho um livro e não consigo esquecer do que aconteceu eu sei que foi porque amei um personagem. Acabei de ler o Como eu Era antes de Você e fiquei apaixonada pela Clark e pelo Will. Como sempre o texto do Maurício foi ótimo.

  4. Eu estou adorando essa série sobre a escrita!!!! Parabéns, Maurício! E eu adoro os personagens que conseguem deixar marcas que ficam mesmo depois de passarem meses desde o fim do livro!

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