Maurício Gomyde

Sobre minha escrita – A pesquisa

19 / janeiro / 2016

A palavra glamour é originária do escocês e decorre de grammar, grammatica. Na idade média, poucos sabiam ler e escrever. A gramática era eventualmente associada a práticas ocultas e mágicas. Em inglês, a palavra grammar significava “encantamento” e também “gramática”.  Como em escocês a palavra era grafada com L (glammar), o tempo deu cabo de conceber, por fim, a acepção entendida atualmente do que seja glamour: tornar algo encantador.

Encontrei essa definição numa breve pesquisa para a coluna. Gostei de saber que glamour traz, em seu DNA, o ato de escrever. Para quem não é escritor e não sabe da luta árdua para conceber uma história, pode até fazer sentido. O autor isolado num refúgio nas montanhas, em frente a uma janela enorme, o sol iluminando o vale, o som das teclas de uma máquina de escrever antiga, as folhas em branco preenchidas por cenas que… Ah, puro glamour! Quando o leitor encontra a história pronta, dificilmente imagina a trabalheira que deu para chegar até ali.

Faulkner disse, certa vez, que um grande romancista é formado por “Noventa e nove por cento de talento, noventa e nove por cento de disciplina e noventa e nove por cento de trabalho”. Acho que é bem por aí. Escrever é trabalhar, mesmo que envolvido pela aura da criação, do sentimento e da emoção. São partes interligadas de um mesmo processo.

Nesse contexto, a pesquisa compõe a parte do chamado “meter a mão na massa”. Quando digo que sempre sei como o livro começou, mas nunca saberei como ele terminará, o que encontro durante minhas pesquisas é parte fundamental das descobertas ao longo da caminhada e responsável por inúmeros atalhos e mudanças de rumo. Por exemplo: tenho um livro que trata da troca de cartas entre dois desconhecidos, uma jovem e um velho, mas que começou como a história de um sujeito que recebia um telefonema no momento exato em que iria se suicidar. Só Deus sabe como uma coisa desembocou na outra. Provavelmente, eu estava lendo sobre suicídio, caí em cartas de suicídio, fui aos romances epistolares, li uma carta de amor e, então, o suicídio daquele sujeito já não tinha mais nada a ver com nada.

Hoje em dia o trabalho ficou muito facilitado por ferramentas da internet. É possível estudar causas e consequências de uma doença, descobrir canções que fizeram sucesso em determinada época, assistir a vídeos sobre uma profissão ou um esporte e passear virtualmente por uma rua onde o autor decidiu ambientar a cena. Fácil, mas perigoso. Há que se tomar cuidado redobrado, porque não devemos esquecer que estamos falando de romance, e não de trabalho de faculdade. Se ficar com cara de Wikipédia, o romance nasce morto.

Em última instância, nada substitui a experiência. Sempre que posso, vou aos locais onde minhas histórias acontecem. O famoso “cheiro do lugar” faz toda a diferença. Durante a escrita de Surpreendente!, apoiei minhas pesquisas em três frentes: primeiro peguei a estrada e fiz boa parte da viagem que os personagens fizeram, inclusive escutando as mesmas músicas; depois, tive o “auxílio luxuoso” de um grande amigo que sofria do mesmo problema que o personagem principal; por fim, assisti a inúmeros filmes para entender como é o universo do cinema e seus tantos clichês relatados na história.

Duas viagens estão marcadas para o fim deste mês, como parte das pesquisas para o novo livro. Já preparei meu iPod com a trilha sonora que embalará esses dias. Já separei o gravador que registrará as ideias e os sons dos cenários. E, dentro da mala, já guardei boas doses da empolgação e da certeza de que verei, com os próprios olhos, um monte de coisas que mundo virtual algum jamais poderia me mostrar.

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Comentários

8 Respostas para “Sobre minha escrita – A pesquisa

  1. Ta ai um ponto de vista pouco conhecido. Realmente quando estamos nos maravilhando com o livro parece que a historia minou dos poros do Autor (rsrs) poucas vezes paramos para pensar nesse processo árduo. Parabéns

  2. Acho que o leitor não se engana quando a pesquisa é meio que feita de wikipedia (adorei…rsrsrsrs). Nos livros do gomyde é possivel a gente sentir esse cheiro do lugar que ele fala. Tem cenas em que eu me sinto dentro dela e no surpreendente teve muitas cenas em que isso aconteceu.

  3. Perfeito. A pesquisa trás credibilidade a um livro. Quanto mais profunda e interativa, melhor ferramental o autor disporá para moldar a história com seu talento.

  4. Adorei o texto. E é isso mesmo. A pesquisa é extremamente necessária, principalmente quando discorre de um assunto que o autor não domina, ou algo relacionado ao passado. Mas nada como a experiência sentida na pele e em todos os sentidos para exprimir com clareza ao leitor tudo o que se deseja, e transformar assim, uma cena perfeita. Amei!

  5. Gostei muito do seu post. Vou chamar o que você descreveu como o “laboratório do escritor”.

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