Cristina Tardáguila

O roubo de arte e o crime organizado

26 / janeiro / 2016

Quem for ao Google agora e fizer uma busca pela expressão “roubo de arte”, verá surgir na tela do computador nada menos do que 1,4 milhão de resultados. São notícias sobre casos recentes, pesquisas a respeito da atuação dos nazistas nessa área, informações acerca de filmes e livros que tratam do assunto. Perceberá que quanto mais famoso for seu autor e maior o valor de mercado da obra levada e a destreza do criminoso na hora do ataque, mais destaque o caso terá na internet.

artedodescasograndeVocê já reparou que roubo de arte não é um assunto que costuma despertar o interesse das forças policiais? Um homicídio não solucionado tende, em geral, a ser um escândalo. O desaparecimento de uma pintura, por outro lado, jamais passa de um mistério.

Em junho de 2013, enquanto apurava material para A arte do descaso, fui para a Itália. Na pequena cidade medieval de Amelia, situada no coração da Úmbria, eu descobriria que essa sensação de descaso com roubo de arte já tem um nome: foi batizada pelos membros da Association for Research into Crimes against Art (Arca) como Síndrome de Robin Hood.

Numa das aulas que tive em Amelia com o americano Noah Charney, uma das celebridades mundiais no estudo de roubo e falsificação de arte, surpreendi-me com o óbvio: há três motivos relativamente simples para o desdém com que as forças policiais costumam tratar crimes contra a arte.

— O primeiro deles tem a ver com o fato de que é raro haver mortos nesses ataques. Logo, a comoção popular é menor — explicou-me Charney. — O segundo está ligado ao fato de que arte é normalmente tratada como algo supérfluo, dispensável, acessório. Terceiro, por fim, passa pelo perfil da vítima. Em geral, é membro da elite, alguém ou alguma entidade que, de certa forma, parece ter mais do que o necessário para sobreviver. Então o ladrão estranhamente vira uma figura glamorosa, que está tirando um pouco dos ricos para dar aos pobres.

Caros leitores, nos últimos quatro anos de trabalho, descobri que pensar dessa forma revela um desconhecimento total sobre como os roubos de arte acontecem e a que propósito eles realmente servem hoje em dia. Num dos casos mais graves que encontrei e que estão relatados em A arte do descaso, relembro uma reportagem que a revista alemã Der Spiegel publicou em julho de 2005.

Nela, a publicação revela que, em 2000, o terrorista Mohammed Atta, um dos responsáveis pelo ataque ao World Trade Center, procurou um professor da Universidade de Göttingen, na Alemanha, tentando vender arte afegã, peças da Antiguidade visivelmente roubadas. Segundo a Der Spiegel, ao ser questionado sobre sua necessidade de fazer dinheiro, Atta não teria se esquivado: disse, sem hesitar, que queria comprar um avião.

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