Leticia Wierzchowski

O veraneio

22 / dezembro / 2015

Férias: lá vou eu. A partir de hoje, vou deixar as sextas-feiras um pouquinho mais silentes. Volto em fevereiro com meus textos. Um abraço a todos.

Férias: lá vou eu. A partir de hoje, vou deixar as sextas-feiras um pouquinho mais silentes. Volto em fevereiro com meus textos. Um abraço a todos. (fonte)

O conceito que se tinha de férias e que se encontra no Aurélio sob a definição de “certo número de dias consecutivos destinados ao descanso” mudou bastante, visto que a mania de fazer mil coisas ao mesmo tempo contaminou o período que originalmente era dedicado ao ócio, ao prazer e à contemplação. As férias modernas ganharam conotações quase olímpicas. Viaja-se com um roteiro programado, intenso, encaixadinho. Fazer o Nordeste, passear pelo litoral catarinense, fluminense e paulista. Nem os sagrados dias de descanso de um vivente escaparam dessa absurda mania de organização e bom aproveitamento do tempo que a gente vive hoje em dia.

As férias de verão, por exemplo, deveriam não ser mais do que propriedade do acaso. Acha-se um endereço, de preferência numa praia bonita e relativamente calma, leva-se boa provisão de livros e de filtros solares — e seja o que Deus quiser. De resto, somente a permanência liberta, isso no caso de a meteorologia contribuir, pois estamos evidentemente falando de uma praia com sol. Ficar muitos dias num único lugar, até o tédio das reticências… Isso, sim, é luxo. Desfazer as malas apenas uma vez, estender a rede na varanda e gastar tardes ali.

Quando eu era menina, veraneávamos. Essa era a única regra fixa nos dois meses de vacaciones: estar na praia. Sem planos, sem passeios mirabolantes, sem calendários. As semanas escorriam molemente, alternando dias de sol e chuva, e era uma delícia estar assim, apenas flanando entre as horas, na rotina da praia e da sesta. “Tirar uma torinha”, como dizia meu pai. Duas horas por tarde, de pijamas. Depois, praia outra vez e pão quentinho, de quarto de quilo, de meio quilo, e a gente vinha comendo a pontinha no caminho, porque quem comia a ponta do pão ficava mais bonito. Telefone nem havia. Num caso de urgência, ia-se à central telefônica, tirava-se uma ficha, esperava-se a fila. Era coisa imperdível: todas as crianças enfiadas na cabine minúscula e suarenta para dar no pai o beijo das quartas-feiras. Às sextas, o pai chegava à praia trazendo o carro carregado de frutas, comidas e novidades. Eram exatamente assim nossas férias, multiplicadas por oito. Ninguém precisava de mais; seguíamos salvos para o ano seguinte, livres e leves.

Recuperados de qualquer percalço, fechávamos a casa de praia no último dia de fevereiro. Eram longos aqueles adeuses, a rua inteira se despedindo, rumando para suas casas na cidade. Mesmo morando todo mundo em Porto Alegre, às vezes em bairros vizinhos, jamais nos víamos nos meses de março a dezembro — éramos amigos de verão, e tal lógica nos parecia sagrada e irremediável.

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