Leticia Wierzchowski

O que era vidro

3 / dezembro / 2015

 

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(Quadro por Jenny Muncaster)

Casamento com festa e presentes enche os armários da casa nova. Sempre gostei de dar taças e cálices para os noivos. Nem costumo olhar as listas nas lojas: taças, quero taças. Que um casamento se inicie com um armário cheio delas! Noivos que não pedem cálices e taças não estão casando para ser felizes. Tive prova disso num casamento para o qual fui convidada alguns anos atrás. Na lista, só havia panelas, pratos, eletrodomésticos e jogos americanos: muita vida real para qualquer começo. Então, dei um jogo de taças. Não adiantou muito. Alguns meses depois, o casal se separou, e elas devem ter ido parar num quarto e sala de solteiro. A vida precisa de brindes! Creio que, no fundo desses delicados bojos cristalinos, habita um eterno convite à alegria — o começo de uma vida nova merece comemoração, e toda vida que se perpetua também pede seu tim-tim, mesmo que simbólico.

Com o passar do tempo, no entanto, as taças vão desaparecendo. Um belo dia, a gente abre o armário de louças e se dá conta de que aquelas taças que a vovó nos deu já não existem mais. Fazer um inventário dessas perdas é uma aventura interessante. Um brinde de Natal e, pum!, uma taça vai-se embora. Aquela noite romântica e um arroubo na semiescuridão da sala: mais um gol. Uma antiga festa de aniversário e sua melhor amiga erra a linha divisória entre o fim da mesa e o começo do caminho que leva ao chão. Assim vão sumindo os cálices e as taças da nossa vida. Mas ficam os momentos. Há algum tempo, estava começando a arrumar a mesa para uma festinha quando vi que meu armário estava bastante desfalcado. Não foi difícil nem triste lembrar como meus cálices foram partindo, um por um. Foi bom. E gostei dos conjuntos desfeitos, da mesa com as taças diferentes, onde tantas vezes confraternizamos com família e amigos queridos, brindando filhos, empregos novos, aniversários, superações e reencontros.

Hoje, arrumo a mesa com um mix de taças dos vários conjuntos que já passaram por aqui. Em cada jantar, há um apanhado dos bons momentos vividos, um recorte da vida codificado pela multiplicidade de cálices e taças. Que venham mais brindes! Porque só com alegria é que se consegue ir em frente. Quebrar os cristais é sempre sinal de boa sorte. Prefiro minhas taças quebradas a escondidas dentro de um armário fechado. Assim é a vida, não é mesmo?

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