Leticia Wierzchowski

O lugar do escritor

10 / dezembro / 2015

A editora Cosac Naify fechou as portas, para grande tristeza de todos nós. Mas as belezas que ela publicou seguem por aí, iluminando nossos dias. Aqui, sobre a mesa, tenho um livro de fotografias cujo título peguei emprestado para este texto (O lugar do escritor, Eder Chiodetto), que mostra vários autores e os locais onde trabalham. Vemos Patrícia Melo, Manoel de Barros, Luis Fernando Verissimo, Nélida Piñon, Adélia Prado, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado e muitos outros. Vemos Ariano Suassuna deitado numa cama enorme na sua casa no Recife, revisando seus textos, enquanto, diz ele, os netos correm pela sala. É um belo livro, que fica no lugar onde escrevo.

Eder Chiodetto assina um preâmbulo explicando o livro — um texto curto, que diz algo como: o lugar onde o escritor escreve sua história é exatamente onde ele nunca está. Achei lindo, pois esse lugar, esse refúgio entre livros, uma janela talvez para uma paisagem querida, é apenas uma porta para o mundo da ficção. Dali é que o escritor se debruça para o outro lado, em aventuras divertidas, às vezes repletas de sofrimento, de angústia, de incertezas. Nunca estamos onde estamos quando escrevemos. Quando lemos um bom romance, também. A ficção é uma ponte para novos mundos, e a mesa de um escritor, penso eu, é um ancoradouro. Dali, partimos e voltamos das nossas viagens ficcionais.

Lembrei um trecho do livro de memórias do Orhan Pamuk, Istambul, memória e cidade, em que escreve: “Cinquenta anos depois, vejo-me de volta ao mesmo edifício onde as minhas primeiras fotografias foram tiradas […] Mas vivemos numa era definida pela migração em massa e por imigrantes criativos, de maneira que muitas vezes me vejo levado a explicar por que fiquei não só no mesmo lugar, mas no mesmo edifício.”

Pamuk ficou lá exatamente porque uma parte dele nunca esteve lá de verdade. Seu edifício e até mesmo Istambul (ele escreve, o destino de Istambul é o meu destino) são apenas seu ancoradouro, pois, quando o espírito do escritor navega, sua alma precisa ficar em algum lugar.

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Comentários

3 Respostas para “O lugar do escritor

  1. Realmente escrever é uma viagem, e muitas vezes começa antes mesmo de estar diante a escrivaninha, ou de qualquer outro lugar que tenha escolhido para ali escrever seus textos, suas história. É nessas viagens que nos encontramos com o nosso verdadeiro eu. Cada texto escrito é como um célula de nosso corpo, e não há perda, elas se multiplicam através das paginas escritas.

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