Maurício Gomyde

Novos tempos

9 / dezembro / 2015

Minha cabeça anda cheia. Minhas páginas, em branco.

Tempos estranhos…

Tenho acordado cedo, mas, ainda na cama, começa o autobombardeio. Antes mesmo de dizer bom-dia às minhas três mulheres, já conectei a mente ao resto do mundo. Redes sociais, páginas de jornais, opiniões de gente que mal conheço ou nunca ouvi falar. Sarcasmo, ódio e intolerância, em sua maioria. Pasmo, percebo então que a permissão para que pautem minha vida é dada diariamente por mim mesmo. Fogo amigo. Alimento tóxico para a alma, antes de colocar os pés fora da cama e ingerir alimentos saudáveis para o corpo.

Este ano, quanto tempo desperdicei conectado? E quantas vezes me sentei no tapete para jogar o jogo de tabuleiro preferido da minha pequena? Quantos pensamentos me atormentaram um dia inteiro por algo sem importância que li pela manhã? E quantos minutos do mesmo dia gastei relembrando o sorriso que minha mais velha deu ainda dormindo, abraçada a seu gato de espuma? Quanta energia dispendi maquinando a resposta que deveria dar àquele comentário que me afetou além da conta? E o quanto de esforço fiz para telefonar no meio da tarde para minha mulher só para dizer um breve “te amo”?

Lembro-me de várias vezes em que levei as meninas à escola dirigindo e lendo notícias no celular ao mesmo tempo. Sei que me perguntaram coisas que não respondi. Ou respondi sem saber exatamente qual era a pergunta. Distração que pôs em risco a vida, além de jogar fora a oportunidade de dizer uma história divertida, trazer um ensinamento ou aprender com as lógicas aparentemente ilógicas das crianças e me tornar uma pessoa melhor.

Recordo que raramente me concedi o prazer de não fazer absolutamente nada, de praticar o ócio, de ficar imóvel para decifrar a forma de uma nuvem, ou deitar na rede, de olhos fechados, e capturar os sons da cidade — coisas fundamentais para mim, como escritor e ser humano.

Quando você sente necessidade de mudar os rumos da vida, deve começar já. Não precisa esperar a meia-noite do dia 31 de dezembro. Ela é só uma convenção, pois a todo segundo começa um novo ano. Meu ano-novo começará exatamente após as reticências ao fim desta coluna. Já tracei meus planos.

Novos tempos…

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Comentários

6 Respostas para “Novos tempos

  1. Eu também estou me desconectando. Dando mais importância a outras coisas. Cansei. Texto perfeito!

  2. Ótimo texto, Maurício! Eu tento todo dia lutar contra essa nossa conexão obrigatória com o mundo todo, o tempo inteiro. E é cada vez mais difícil escapar dela. Todos os meus amigos marcam festas e junções pelo Whatsapp, mas eu me recuso a usar o aplicativo. E eu fico de fora dessas junções. O que vale mais: deixar de ir à festa ou ir e testemunhar todos eles grudados no celular o tempo inteiro? Temos que pensar diferente, mesmo. Começando por nós mesmos. Boa iniciativa.

  3. Amei o texto e concordo com você. Temos que viver mais o agora e prestar atenção ao que nos rodeia. Parabéns pelo texto.

  4. O amor que o Maurício tem por suas mulheres é muito fofo.

  5. Exatamente isso! As pessoas estao juntas, mas separadas pela tecnologia. Estamos precisando mais de convivência real e menos virtual.

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