Clóvis Bulcão

José Serra e os Guinle

14 / dezembro / 2015

1967 José Serra em Santiago do Chile

José Serra no Chile (Fonte)

Quando Guilherme Guinle morreu, em 1960, alguns veículos da imprensa disseram que ele era o Nelson Rockefeller brasileiro. O norte-americano Nelson, como Guilherme, tinha muito dinheiro, mas o motivo maior para a comparação era a generosidade de ambos. Verdadeiros mecenas, eles patrocinaram educação, artes, esportes, ciência. Mas havia algo que os separava de forma decisiva: a paixão pela política. Nelson, filiado ao Partido Republicano, foi governador de Nova York e ocupou a vice-presidência da República no mandato de Gerald Ford (1974-1977). A família Guinle, grosso modo, passava ao largo do mundo político.

Esse estilo de vida não impediu, no entanto, que o clã mantivesse algumas relações decisivas com políticos até hoje bastante influentes. O caso mais relevante envolveu Octavinho Guinle, um dos herdeiros e ex-proprietários do Copacabana Palace, e o senador paulista pelo PSDB José Serra. Quis o destino que eles se encontrassem no Chile, logo após a instalação da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990).

Octavinho era diplomata de carreira e José Serra, refugiado político. Quando os militares chilenos derrubaram o presidente eleito Salvador Allende, em 1973, o Chile se tornou um local nada convidativo para os que fugiam do governo do Brasil. Até então, o Chile recebia inúmeros brasileiros que fugiam da truculência da ditadura brasileira.

Com o golpe de Pinochet, José Serra precisava sair o mais rápido possível do Chile. Seu nome, porém, como o de centenas de outros refugiados, constava de uma lista do serviço secreto brasileiro, o famigerado SNI (Serviço Nacional de Inteligência), dando conta de que ele contestava o regime militar brasileiro e por isso não poderia receber passaporte de nenhuma embaixada brasileira.

O fato é que, de forma ainda um tanto nebulosa, José Serra acabou recebendo o seu passaporte, podendo fugir do Chile. Ao longo da pesquisa que empreendi para tentar entender esse episódio, conversei com o diplomata Octavinho, que teria sido o mentor do corajoso gesto. Ele me disse que o passaporte foi concedido, oficialmente, por um suposto descuido da burocracia do serviço diplomático brasileiro no Chile. Só que as autoridades militares brasileiras não engoliram esse descuido. E Octavinho acabou pagando caro, sendo simplesmente afastado do Ministério das Relações Exteriores.

Por meio da intermediação do deputado Pedro Índio da Costa, tentei falar com José Serra sobre o caso, mas o senador nunca me respondeu. Como ele lançou um livro de memórias na mesma época em que nascia Os Guinle, penso que preferiu não me passar uma informação que incluiria em seu livro.

Octavinho, apesar de ser claramente uma vítima da ditadura, não foi beneficiado pela Lei da Anistia, que indenizou os que sofreram perseguições  durante o período dos militares no poder. Algo me diz que nunca nenhum governo brasileiro se sentiria confortável em indenizar uma família que já foi riquíssima. Acho que a exploração do porto de Santos por quase cem anos conferiu aos Guinle, no meio político, uma certa “má fama”.

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