Maurício Gomyde

Emoção ou técnica?

2 / dezembro / 2015

On-The-Road-Movie-3

Cena de On the road (fonte: cinemarcado)

O que é mais importante durante o processo de escrita: a emoção ou a técnica?

Essa questão tem sido recorrente em minha vida de escritor. Ora levantada por outros autores e leitores, em mesas de bar ou eventos literários, ora por mim mesmo durante o processo de escrita de meus livros e textos. E, quanto mais me debruço sobre o tema, mais convicção tenho de que ambas são fundamentais, com a balança pendendo para a emoção. A chave talvez seja garantir certo equilíbrio. A meu ver, não se deve dedicar atenção demais a uma em detrimento da outra. Um romance pura técnica tende a ser frio, e um pura emoção tende a ser caótico.

Não estou dizendo aqui, claro, que não haja casos de autores que tenham sentado em frente à máquina de escrever ou ao computador e despejado uma avalanche de emoções que resultaram em romances poderosos. Mas isso acontece vez ou outra numa geração. Diz a lenda que Kerouac escreveu On the Road deste jeito: “Tudo em um rolo de papel com 36 metros de comprimento […] simplesmente inserido na máquina de escrever e sem qualquer divisão de parágrafos […] deixando que o papel se desenrolasse sobre o chão e que o aspecto do rolo lembrasse o de uma estrada.” Em vinte dias, 125 mil palavras. E saiu um livraço! Por outro lado, alguns dos melhores romances de todos os tempos podem ter sido concebidos de forma calculada, pensada, escrita e reescrita centenas de vezes. Provavelmente, nunca saberemos quais.

Cada vez mais os autores lançam mão das chamadas “técnicas de escrita criativa”. Há um monte de livros sobre isso, cada um se propondo a “ensinar” a escrever. Isso, por si só, já seria uma heresia. Não se pode ensinar alguém a escrever! O que se consegue, acho, é apresentar ferramentas, dicas e insights que auxiliem o escritor a organizar as ideias. Fundamentalmente, se o sujeito não tiver em suas entranhas a pegada de contador de história, não haverá método capaz de fazer milagre.

Para mim, funciona muito bem consultar eventualmente esses títulos. Tenho alguns, confesso, e não escondo que me são úteis. Mas os utilizo a serviço da minha criatividade, para tentar potencializá-la (nem sempre consigo, mas vale a tentativa). Ao mesmo tempo, nada mais saudável para o escritor do que aprender com outros autores. Aprendo demais assim. Não apenas como fazer, mas também o que não gostaria. Misturo tudo isso num caldeirão e depois decanto para encontrar minha própria forma de contar o que está me implorando para ser contado.

No fim, o leitor, quando abre um livro e decide entregar seu precioso tempo a ele, não está esperando simplesmente uma história. Está apostando na experiência e na emoção que ela promete proporcionar. O leitor assina um contrato tácito com o autor de que está disposto a acreditar naquilo. Então, por favor, que seja bem narrado! Porque, se o sentimento de alegria, paixão, medo ou suspense — aquele que está na proposta da história — não atingir o coração do leitor, independentemente de ter sido calculado ou regurgitado emocionalmente na hora da escrita, tal contrato terá sido quebrado. E o leitor não vai perdoar.

Tags , , , , , , .

Leia mais Maurício Gomyde

Câmera lenta

Câmera lenta

A estante num instante

A estante num instante

As oito melhores cenas de despedida do cinema

As oito melhores cenas de despedida do cinema

O amor segundo Buenos Aires, segundo Maurício

O amor segundo Buenos Aires, segundo Maurício

Comentários

9 Respostas para “Emoção ou técnica?

  1. Mais um texto perfeito do Maurício. As colunas dele são inspiradoras. No meu caso, me inspiram como leitora. Mas imagino que também sejam inspiradoras para os escritores.

  2. Adorei o último parágrafo. Como leitora, sinto exatamente assim.

  3. Penso o mesmo que você, caríssimo Maurício. Há menos de um mês, eu fiz um vídeo no meu canal (Neurose do Escritor) falando sobre isso. Como saber equilibrar a técnica de escrita com a inspiração. Belo texto!
    Abraços literários, meu amigo.

  4. Grande Mauricio, aprendi muito com você em um dos bate papos, e até descobri que estava fazendo muitas coisas certinhas enquanto outras não, tipo o horário de escrever, hoje já tento determinar uma certa hora, para que a história ganhe vida e mais vida a cada dia, dificil é quando nessa hora, a inspiração me foge.
    Abraço, Mauricio

  5. É isso mesmo Mauricio, eu por exemplo sou muito emocional e detalhista, me identifiquei com isso que você falou, achei interessante e cheio de verdade: “se o sujeito não tiver em suas entranhas a pegada de contador de história…”,bem, isso eu acho que tenho até demais, começo com tanta gana que não paro mais e esqueço que é necessário técnica. Mas a emoção junto com essa pegada, a gana de escrever me deixam inspirada. Eu já vi muitos videos ensinando técnicas, mas por mais que eu veja esses videos, eles não me convencem muito, e isso me preocupa, porque eu só entendo de escrever aquilo que está louco para sair. Nossa, isso me aflige um pouco. Só me preocupo na hora que for fazer a correção. Porque escrevo livremente, eu não entendo muito de técnica não. é tanta gente ensinando que as vezes paro um pouco, ai releio, e ja percebi que se pensar muito nisso vou perder inspiração, como já aconteceu. Então resolvi somente escrever e pronto. Li agora os comentários e o do Edson Gomes me prendeu a atenção, vou procurar esse video dele “Neurose do Escritor”. Eu acho que foi por isso que ainda não terminei meu livro rs..enfim
    Abraço!!

  6. Recebi certas criticas sobre meus textos por pessoas altamente conhecedoras das técnicas e que por vezes não conseguiam nem se ater ao amor presente nos textos igual a maioria das pessoas… Obrigado pelo seu texto, me confortou.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *