Clarice Freire

Tomar

12 / novembro / 2015

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A noite avançava pesadamente e ele queria tomar algo. Anestesia, talvez. Na verdade, essa casualidade do talvez era mais uma boa desculpa para sua culpa mais pesada que a noite. Pesava assim porque sabia muito bem do seu desejo desesperado por anestesiar-se de si mesmo. Mas não falaria isso em voz alta interna de jeito nenhum.

Já havia, a essa altura, tentado de tudo: calmantes, relaxantes, florais, sementes, chás de todas as cores, músicas em todos os tons, todos os tipos de amores — até um ano sem nada querer saber. Tomara também uns copos de não sei o quê.

Umas taças de vinho: uns bons, outros que pareciam mais um lambedor vencido.

Um tempo correndo, um tempo pintando, um tempo perdido.

Olhava a janela: não sabia mais o que fazer, o que tomar. De repente, aquele som ensurdecedor que fazem as turbinas de um avião tomou conta do seu pequeno apartamento mal-arrumado. Sempre odiara morar perto do aeroporto. Aquele barulho, antes, lhe doía nos nervos. Depois, como tudo na vida, acostumou-se, e já havia fabricado internamente, também para isso, anestesia.

Mas hoje não. Ouviu novamente aquele estrondo penetrando todos os poros da sua sala cinzenta como um estridente e exagerado despertador. Que estranho! Aquelas turbinas pareciam ecoar como se as asas estivessem o tempo inteiro pousadas bem debaixo do seu nariz.

E a resposta era tão óbvia!

Ele não queria anestesia.

Como pôde, por tanto,

desejar não sentir?

Mas era de se entender.

Chegou ao ponto

que nada entendia.

Só queria se ver,

dar um foco à sua

autovigilância.

Fez as malas,

esqueceu os copos.

Só devia

tomar distância.

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