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Quando o FBI entrou para a máfia

13 / novembro / 2015

Por Lucas Baranyi*

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Histórias de máfia sempre se destacam por dois motivos: a ultraviolência dos criminosos envolvidos em um grupo quase sempre formado por questões familiares ou geográficas, e a importância da união entre esses integrantes.

É por motivos assim que a trilogia O poderoso chefão, criada pelo americano Mario Puzo (1920-1999), se fez tão importante no imaginário popular quando o assunto era a tal máfia: o respeito pela família, a tradição, a revolta com informantes e traidores e a obsessão paradoxal com a igreja e os bons costumes.

Whitey Bulger, americano de ascendência irlandesa, é o tipo de mafioso que transitou por todos esses universos, mas que em nada se assemelha ao famoso Don Vito Corleone, imortalizado no cinema pelo inesquecível Marlon Brando. Whitey, como revela o livro Aliança do crime e sua adaptação homônima para as telas, era visceral, violento e imprevisível. Um homem que beirava a loucura, deixando seus frios olhos azuis ainda mais lúdicos e intimidadores. Durante anos, Bulger foi informante do FBI, e seu plano era simples: fornecer informações para derrubar a máfia italiana, assumir o controle da parte sul de Boston em que cresceu e não ser incomodado pelos agentes federais americanos.

A história por trás da ascensão de Bulger chama atenção justamente pelo escândalo em que o FBI se envolveu: como um dos órgãos mais respeitados do governo americano iria se curvar frente a um mafioso que fez gato e sapato da instituição? A resposta a essa pergunta é tão poética quanto verdadeira: lealdade.

Nascido James Joseph Bulger Jr, Whitey já era uma figura que impunha respeito desde a adolescência, e isso fez com que o jovem John Connolly, da mesma ascendência irlandesa e criado nas mesmas ruas que ele, nutrisse desde cedo respeito e admiração pelo criminoso. A ironia do destino é que, enquanto Whitey fez sua carreira no mundo da ilegalidade, Connolly tornou-se um importante investigador do FBI — o tipo de aliado que um chefão do crime precisa para prosperar.

E é justamente nesse ponto tão importante, a amizade e lealdade que envolve a máfia de Boston, que o livro escrito por Dick Lehr e Gerard O’Neill se sobressai ao filme dirigido por Scott Cooper (que esteve por trás do ótimo Coração louco, com Jeff Bridges). Não que o filme seja ruim — muito pelo contrário: mesmo em um ano com ótimas produções de diversos estilos (Corrente do mal, Mad Max: Estrada da fúria, Divertida mente, Ex-Machina: Instinto artificial e Beasts of no nation, só para citar algumas), Aliança do crime se destaca por tratar de um gênero clássico sem perder a linha. Mas isso não é o suficiente.

BLACK MASS
E não é suficiente pela própria história que é contada: uma das passagens mais interessantes, contida ainda no prólogo do livro — e vital para entender a relação quase familiar, em alguns momentos, entre Connolly e Bulger — não aparece nas telonas. É o momento que mostra o nascimento da fixação do agente do FBI pelo mafioso, quando eram ainda crianças: Connolly hesitou em aceitar um sorvete comprado por Jimmy [apelido pelo qual o chefão gostava de ser chamado].

Então, [Jimmy] deu ao garoto uma lição rápida e crucial sobre a história e linhagens: os ancestrais dos dois eram irlandeses. Eles não eram estranhos um ao outro. “De que sabor você quer?”, perguntou Whitey (…) Foi a primeira vez que John viu Whitey. Muitos anos depois, ele diria que a emoção de encontrar Bulger por acaso nesse dia foi como a de “conhecer Ted Williams”, o então famoso rebatedor do Boston Red Sox, time de beisebol da cidade.

Esse simples relato é suficiente para justificar, anos depois, a aliança realizada por FBI e Whitey. E, por mais que pareça loucura, estamos falando de uma realidade fria e violenta, na qual esse tipo de relação, que parece simplória aos olhos da realidade, pesava muito. Assim como, em contrapartida, a ausência de figuras femininas nas obras do gênero escancara o pequeno papel reservado às mulheres nesse tipo de negócio (o que também se repete em todas as outras grandes obras sobre a máfia nos Estados Unidos).

Para completar a tríade de poderes, a força política do irmão de Whitey (Johnny Depp, que tira uma folga das já tediosas parcerias com Tim Burton para entregar um personagem no tom certo, assustador e real) também se faz muito presente através de Billy Bulger (Benedict Cumberbatch, que derrapa no sotaque sulista graças ao seu inglês shakespeariano), irmão de Jimmy e político democrata que se tornou presidente do Senado de Massachusetts. Sua presença, mais contida no filme do que no livro, é de alguém que utiliza menos influência do que poderia para facilitar a vida de seu irmão, mas que ainda assim impressiona.

capa_alianca_do_crime_GÉ preciso fazer um mea-culpa, porém, ao comparar as duas obras: seria muito difícil adaptar Aliança do crime para o cinema com fidelidade, graças ao ótimo trabalho desenvolvido por Dick e Gerard: todos os fatos extraordinários que fazem o leitor questionar a linha tênue entre ficção e realidade, considerando a situação fora do comum em que o FBI se enfiou (e é tudo verdade) são muito bem amarrados por fatos históricos, como reportagens especiais do tradicional jornal The Boston Globe.

Para tentar demonstrar toda a colcha de retalhos em que se transformou Boston sob o reinado de Whitey, o filme usa o recurso de flashforward, acelerando a narrativa para mostrar depoimentos dos comparsas do mafioso. A lista de falcatruas é imensa: de tráfico de drogas até prostituição, passando por casas ilegais de apostas e assassinatos por encomenda, era como se a máfia de Boston só se importasse realmente com lucrar e manter o sul da cidade sob domínio dos irlandeses, sempre repudiando informantes — e a ironia de Whitey ter sido escancarado como um dos principais informantes da história do FBI é tão cruel que só poderia ter saído de uma história real.

Outro personagem que também merecia um destaque maior é Fred Wyshak (Corey Stoll, eternamente marcado por seu papel na série House of Cards, da Netflix), o advogado que peita Connolly e metade do FBI para conseguir derrubar o império de Whitey. A impressão que o filme transmite é quase como se Wyshak fosse uma força imparável, que chegou do nada e, com dois golpes de sorte, desmontou todo o esquema que existia — e o livro mostra que a história foi, na verdade, bem mais complexa. Ainda assim, não é possível dizer que a adaptação de Aliança do crime não é bem realizada — o problema é que a obra literária se sobressai justamente por ser mais rica em detalhes e entregar o tipo de história que, seja transmitida por um projetor de cinema ou pelas linhas corridas de um livro, ainda parece fantasiosa demais para ter acontecido. Mas aconteceu — e deixou marcas no FBI que não irão desaparecer tão cedo.

link-externoLeia também: o elenco de Aliança do Crime

 

Lucas Baranyi é repórter do site da VIP. Começou a carreira jornalística na revista Sexy cobrindo cultura, sexo e comportamento para depois trabalhar em diversas agências de publicidade com conteúdo e social media. Já colaborou para blogs como Casal Sem Vergonha e Entre Todas as Coisas e escreveu para publicações como Viagem e Turismo, Mundo Estranho e Superinteressante.

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