Clóvis Bulcão

Os Guinle e o Teatro Tablado I

16 / novembro / 2015

Pluft, o Fantasminha 1955 - 2

A montagem de 1955 de “Pluft, o Fantasminha”

Ao longo da pesquisa para escrever Os Guinle, em alguns momentos me emocionei, pois sua saga, surpreendentemente, esbarrava na minha vida pessoal. Quando comecei o trabalho, nunca poderia imaginar que houvesse uma ligação entre a família e o teatro carioca O Tablado.

Braço artístico de uma organização católica de beneficência chamada O Patronato da Gávea, o Tablado foi fundado no bairro do Jardim Botânico, em 1951, pela dramaturga e atriz Maria Clara Machado. Além de manter uma rica programação para o público infantil, em seu prestigiado curso formam-se, há gerações, dezenas de atores e atrizes que depois seguem fazendo sucesso, como Rubens Côrrea, Miguel Falabella, Fernanda Torres e Mateus Solano.

Minha família tem uma antiga ligação com o Tablado. Eu e meus irmãos, ainda crianças, fomos batizados na capelinha do Patronato, ou seja, no mesmo imóvel do teatro. Maria Clara Machado, amiga de minha mãe, frequentava nossa casa. Cacá Mourthé, herdeira e atual gestora do Tablado, foi minha colega de turma no Colégio Princesa Isabel. Nos fim dos anos 1970, minha irmã, Marcinha Bulcão, aluna do curso de Maria Clara, brilhou na banda de rock Blitz, que se caracterizava por um forte jogo cênico. E, em 2010, lancei em um evento no prestigiadíssimo palco da casa uma biografia de Noel Rosa para crianças.

Apesar dessa relação estreita, eu não poderia supor que até no Tablado havia a participação dos meus biografados. É verdade que Os Guinle foram donos dos teatros Fênix e Copacabana, mas estes nada tinham a ver com o universo das crianças.

A maior surpresa foi saber que Guilherme Guinle, homem sem muito contato com o mundo artístico, foi fundamental para a realização do primeiro longa-metragem infantil brasileiro. A mais famosa peça de Maria Clara, Pluft o fantasminha, estava no auge do sucesso no fim da década de 1950. Além de montagens em várias cidades brasileiras, em 1959 foi montada em Bogotá, no Teatro Hispano Americano de Ensayo; e em 1960 estreou em Buenos Aires, no teatro IFT, e em Paris, no teatro da Maison du Brésil.

Foi nessa onda que Pluft começou a ganhar uma versão cinematográfica, e desde 1958 já circulavam especulações na imprensa em torno da novidade. Sob o comando do diretor Romain Lesage, em setembro de 1960 iniciaram-se as filmagens com um time de primeira: no papel principal, estava Dirce Migliaccio, e a música era de Tom Jobim, com a participação amiga de Vinicius de Moraes e dos cronistas Paulo Mendes Campos e Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta.

Filmar no Brasil na década de 1960 não era fácil. E não foi diferente com Pluft, que só estreou em abril de 1962, no extinto cinema Riviera, em Copacabana. O curioso é que dois anos após a morte de Guilherme Guinle, ocorrida em maio de 1960, foi divulgada a notícia de que ele participara da produção com um total de 250 mil cruzeiros (aproximadamente 10 mil dólares). Foi esse o seu último ato de generosidade para com a cultura nacional.

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Comentários

2 Respostas para “Os Guinle e o Teatro Tablado I

  1. Que beleza, Clovis, a tua pesquisa ! Que você continue muitas outras, revelando-nos tantas histórias fabulosas ! Guinle, um grande mecenas, sem dúvida, desprovido, de ostentações, ao benefíciar a vida cultural da cidade !

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