Leticia Wierzchowski

O rabo das palavras

19 / novembro / 2015

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(Fonte: http://bit.ly/1l83yia)

O ano de 2015 está quase acabando, graças a Deus — atrevo-me a dizer. É claro que nem tudo foi ruim. Pequenas alegrias iluminaram meus dias, e é delas que quero me recordar mais adiante, quando fizer a curva e olhar para trás. Houve uma coisa muito legal este ano, que quero levar comigo pela vida: descobri, inusitadamente, que gosto de dar aulas. Nunca pensei em ser “professora”. Nunca mesmo. Meu processo criativo é tão desordenado, tão visceral, que jamais imaginei poder ajudar alguém a enveredar por esse mundo impalpável das palavras e das histórias. Porém, quando criei coragem, lá estava eu em frente a quinze alunos — eu e meus singelos apontamentos, eu e minhas dúvidas, eu e minha paixão pela ficção. E tem sido tão bom compartilhar, multiplicar, iluminar… Tem sido tão bom dividir essa aventura que é escrever um livro!

Sempre admirei os músicos porque, no palco, eles têm a possibilidade de dividir o trabalho. A literatura, com seus mistérios e segredos, é um exercício solitário. O escritor escreve sozinho e o leitor lê sozinho — essa ponte invisível que se forma entre ambos permanece como um campo energético, mas é fluida, secreta, silenciosa. No seu último show em Porto Alegre, Jorge Drexler (sempre iluminado) disse que queria criar ali, no teatro, um ponto cego onde a tristeza não entrasse. “La pena no llega hasta aquí”, cantou ele em “La luna de Rasquí”. É isto que sinto na sala de aula cercada pelos meus “alunos”: nas poucas horas em que permanecemos juntos, a tristeza dá um jeito de desaparecer, e alguma outra coisa, leve, vigorosa, fácil e feliz, se imiscui entre nós. Essa coisa, creio eu, é a ficção, são as histórias — porque sem as histórias a gente não vive.

É como escreveu Guimarães Rosa no seu Grande Sertão: Veredas: “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é o viver mesmo… O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

Viver é perigoso, mas escrever uma boa história é ir até o rabo da palavra.

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