Clarice Freire

VarrEU

29 / outubro / 2015

10_29_Post

Um cachorro observa o movimento dos carros na avenida, do alto de uma varanda suja. Não importa que seja cedo, nem que esteja frio. Ou calor demais. Os carros sempre estão na avenida.

E o cachorro sempre acha interessante o suficiente acompanhar cada um com o pescoço, apesar de o seu corpo peludo mostrar preguiça canina deitado no chão.

Uma senhora com sua bengala carrega lentamente uma sacola de frutas. A sacola, posso notar, ela trouxe de casa. Bom sinal. Deve ser uma boa senhora, porque carrega a sacola das suas frutas até a venda. A sacola está tão gasta quanto seus pés. E, como eles, igualmente disposta a fazer suco.

Um senhor lê o jornal elegantemente, com seu café quente de um lado. Do outro, a solidão. Não que ele pareça se importar com ela. A fumacinha saindo da xícara me distrai, pois estava curiosa sobre qual notícia ele lê. Reconheço-a a tempo de desviar os olhos do jornal dos outros.

Outro rapaz varre as folhas e flores que caíram no chão. Sempre tive um sentimento dúbio sobre o trabalho dessas pessoas que varrem flores e folhas do chão.

— Que bom! O chão, afinal, precisa estar limpo para a velhinha das frutas passar.

— Quanta falta de sensibilidade. Não se afastam flores e folhas coloridas de um asfalto cinza como este.

Cinza como estas roupas esperando para atravessar a rua.
Como a minha cara, sem motivo aparente, às vezes compartilha do mesmo acinzentado varrido de flores.

E o meu sentimento é dúbio da mesma forma, quando olho minha vassoura limpando as folhas caídas das minhas pálpebras cansadas.

(Quando pisco, as folhas da minha tristeza caem no chão e as flores do contentamento também se jogam no cimento do fundo do peito.)

Tudo cai por lá, por isso é preciso varrer. Nada suporta uma superlotação. Mesmo que seja de flores.

Não varram minhas flores! Não joguem minhas folhas secas no lixo!

Quero gritar.

Mas me deixo varrer.

Ora, novas jasmins, margaridas, camélias e tulipas virão e sei bem o quanto são exibidas, não dividiriam atenção com as que já caíram, já perfumaram. Diferentes delas, só os lírios-do-campo, que nunca se preocupam com o que vestir. Adoro meu lado lírio-do-campo.

Atravesso a rua, dou bom-dia ao rapaz que varre a calçada, tento chamar a atenção do cachorro, que me ignora; vejo que a notícia do senhor elegante é sobre dinheiro, vejo que as frutas da senhora são muito coloridas.

E escolho essas cores para a minha cara hoje. Espanto aos pulos o cinza amigo íntimo, tão íntimo, que chega sem avisar. Saia um pouquinho, meu filho. Agora não. Pode esperar.

Podem varrer minhas flores, mas não é só para jogar o lixo fora.

É que a primavera aflora, quando é hora.

E é bom abrir alas

para ela passar.

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Comentários

Uma resposta para “VarrEU

  1. Oi clarice,gosto muito dos seus textos,va em frente ,sempre…………….

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