Maurício Gomyde

Quando o livro sai, não volta jamais

7 / outubro / 2015

Via: picjumbo

Uma das coisas que me angustiam ao tomar a decisão de que o livro, enfim, está pronto é o fato de sempre suspeitar, no instante seguinte àquele que o arquivo sai da minha mão, de que se eu tivesse um tempinho a mais ele seria um pouco melhor do que a versão final. Não houve um livro meu que fosse para a gráfica sem o arrependimento de não ter ajustado aquela frase, não ter tirado aquele diálogo, nem corrigido aquela cena que agora incomoda mais que o normal.

A verdade é, no fim das contas: quando o livro sai, não volta jamais. Adeus, é hora de partir para o próximo. Mesmo sabendo que a relação do autor com sua história é umbilical, ele deve, nesse momento, cortar o cordão e deixar a cria ganhar o mundo.

E as perguntas sinceras que eu deveria me fazer para minimizar a dor seriam: será que aquela cena ficou fraca mesmo? Quantos trechos aos quais não dei muita importância, ou que até achei dispensáveis depois do livro impresso, estarão entre os mais adorados pelos leitores? Será que aquele diálogo que escrevi no calor do momento, mas que depois achei meio tosco, é tosco mesmo? Será que aquele clichê deveria ter sido suprimido? E se eu receber um e-mail de uma leitora dizendo que se emocionou justo com ele?

Há autores que batem no peito e dizem: “Escrevo só para mim.” Não é meu caso. Escrevo um tanto para mim e outro tanto para meus leitores. Por isso, mesmo que não esteja satisfeito com algum trecho, levo muito em conta a percepção de quem lê e, eventualmente, até mudo de opinião. São dois lados da mesma moeda: autor-leitor, assim como acontece na relação compositor-ouvinte ou cineasta-espectador, um não vive sem o outro.

Como dizem por aí, você nunca termina uma história, simplesmente a abandona. Bolhas de sabão que o vento levará para estourar no peito dos leitores. A partir dali, não serei o dono de nada, não mais o senhor do texto. Apenas e tão somente o culpado.

Para o bem ou para o mal.

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Comentários

7 Respostas para “Quando o livro sai, não volta jamais

  1. Perfeito, perfeito, perfeito! Encantador como as histórias que ele publica.

  2. Não escrevi nenhum livro ainda, mas se eu já me sinto assim, igualzinha a você, com o meu blog, imagine em um livro, 100-ô! Eu tenho essas crises quando leio uns textos meus já publicados e penso: “nossa, nada a ver isso aqui que eu escrevi” . Mas sabe o que é mais louco? Eu não mudo. Mesmo sendo um blog e eu podendo editar (ao contrário de um livro).

    Acho que é mais pra sentir o que as pessoas pensam ou acham, de verdade.

  3. Adoro ler esses “por tras das câmeras” dos autores e saber como eles pensam no provesso criativo. Gomyde arrasou.

  4. De fato é muito difícil abandonar seu texto e enviá-lo para a publicação. Sempre fico com aquela sensação estranha de quem sai de casa com pressa perguntando-me: o que estou esquecendo?
    Excelente texto
    Grande abraço

  5. Belo texto. A coluna do Maurício já virou obrigatória pra mim.

  6. Vocês vão trazer o Maurício para Salvador? Por favor.

  7. Tragam o Mauricio para Manaus, plisssssss! Nós merecemos ter ele por aqui.

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