Maurício Gomyde

A diferença gritante está no detalhe

21 / outubro / 2015

Music

Hoje cedo tive um debate acalorado com minha filha de onze anos, a caminho da escola.

Minha filha menor, seis, sentada em sua cadeirinha no banco de trás, pediu-me para colocar uma música, qualquer uma. Sempre que elas pedem assim, decreto: “Vamos ouvir o que estava tocando quando desliguei ontem.” Ligo o som e o que vier, veio. É a regra imposta por mim mesmo, o carro é meu. Hoje, ao ligar estava tocando “Caravan” na voz de Ella Fitzgerald. Após cinco segundos de música, a mais velha protestou: “Pai, deixa eu botar uma música mais nova, porque essa está horrível.” “Ok, vamos lá, manda ver.” E ela, então, colocou em seu telefone uma música da Jessie J. Após cinco segundos de música, devolvi o protesto: “Filha, você não acha que todas as cantoras atuais têm exatamente a mesma voz e cantam quase a mesma música?” Pronto, foi a senha para ela dizer que não entendo nada de música, que é um absurdo eu dizer aquilo e “você merece ser deserdado como pai”. Bem…

Meu argumento se sustenta no fato dela colocar essas cantoras que aparecem a cada semana na internet. Desculpem-me os fãs, mas eu praticamente não vejo distinção. Retruquei: “Qual é a diferença entre a voz, a melodia e a batida das músicas de Jessie J, Katy Perry, Pink, Taylor Swift, Ariana Grande, Nicki Minaj, Demi Lovato, Lady Gaga, Vanessa Hudgens ou Ellie Goulding?” (Conheço os nomes, admito.) Corro aqui o risco de até perder algumas leitoras mais jovens com a pergunta, mas não tem jeito. Parecem todas iguais!

Então, para provar minha tese, fiz um desafio. Abri meu celular e digitei no YouTube o nome de algumas cantoras. Cinco segundos após entrar a voz, minha filha acertava o nome! Não errava um! Ela sabia exatamente qual música era de que cantora, mesmo que eu buscasse canções que, supostamente, ela não conhecia. “Não é possível!”, eu gritava, do alto de meus tantos anos de “experiência” musical.

Voltei para casa refletindo e tentando traçar um paralelo com a literatura. Às vezes vejo críticos reclamando da mesmice literária dos dias atuais, que não surgiram grandes nomes nos últimos sei lá quantos anos, que as prateleiras estão recheadas de histórias parecidas, sobre personagens parecidos, vivendo dramas parecidos e para os quais as soluções são quase sempre as mesmas. Não tenho opinião formada, é verdade. Não quero ter que dar a mão à palmatória e admitir, assim como no caso das “canções iguais de cantoras iguais com batidas e melodias iguais” que esta nova geração lê um monte de coisas e é capaz de distinguir o estilo dos autores e, por eles, fazer de tudo.

Preciso admitir, isso sim, que cada autor, por mais que se tente negar, tem sua marca, seu carimbo, sua voz, sua impressão digital e sua íris literários, capazes de diferenciá-lo dos demais. Mesmo no caso das ondas (hot, distopia, chick-lit, sick-lit, livros de colorir e tudo mais que inventarem), quando muitos livros saem sobre o mesmo tema, é possível enxergar o DNA do autor, seja pela maneira de construir frases, seja pela forma de estruturar diálogos, seja pelo modelo de descrição de cenas – ninguém é igual a ninguém.

Minha filha e suas amigas conseguem encontrar provas irrefutáveis do detalhe que torna gritante a diferença entre a Jessie J e a Katy Perry. São fãs de ambas. Para mim, isso é um alento. Significa que há espaço para todo mundo, ainda que nem todo mundo seja capaz de perceber.

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Comentários

9 Respostas para “A diferença gritante está no detalhe

  1. Gomyde, que texto incrível!!! Sou como sua filha, posso colocar qualquer música dessas cantoras que eu saberei distinguir uma da outra. Apesar da “mesmice” é notável um toque singular em cada uma delas e o mesmo se aplica a literatura. Originais são raros, o diferencia é isso mesmo que você falou: nosso DNA! Adoro seus escritos!! Inspirador!

  2. Gomyde, que texto incrível!!! Sou como sua filha, posso colocar qualquer música dessas cantoras que eu saberei distinguir uma da outra. Apesar da “mesmice” é notável um toque singular em cada uma delas, e o mesmo se aplica à literatura. Originais são raros, o diferencial é isso mesmo que você falou: nosso DNA! Adoro seus escritos!! Inspirador!

  3. Meu pai me dizia a mesma coisa e olha que eu estava comparando Madonna com Christina Aguillera. Acho que é só questão de geração. Hoje quem gosta da Demi Lovato amanhã vai estar criticando a próxima onda que surgir. O importante é a gente ser feliz com as músicas que fazem a trilha sonora do dia.

  4. Muito legal! Adorei a comparação da música com os livros. Apesar das semelhanças, sempre dá pra perceber uma particularidade em cada artista.
    Beijos

  5. Hahahaha… Isso é idade !
    Quando era mais nova tinha um gosto musical muito duvidoso ( confesso ! ) , hoje em dia já mudei de opinião e curto coisas de mais conteúdo .

  6. Perfeito! É claro que o Maurício, músico que é, sabe bem do que está falando. Para bom entendedor, meia palavra basta.

  7. Adoro seus escritos, Gomyde!
    Confesso que também tenho dificuldade de diferenciar essas cantoras pop, mas com os livros, quando gosto muito de um, adoro encontrar outro(s) parecido pra traçar paralelos, comparar, defender o favorito.
    Acho que na Literatura o mais do mesmo, embora questionável, é tolerável: quanto mais livros, melhor 🙂

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