Pedro Gabriel

[O PLÁGIO TEMPORÁRIO]

15 / setembro / 2015

 

Na imagem: ideias extraídas de uma simples coluna no jornal Rascunho (setembro, 2015)

ideias extraídas de uma simples coluna no jornal Rascunho (setembro, 2015)

Muita gente me pergunta como venço meus bloqueios criativos. Bom, existem infinitas maneiras. Vou apresentar a forma mais comum de se enturmar com o mundo das palavras. Não é uma solução; é apenas uma sugestão. Pode não funcionar para você, mas muitos artistas se inspiram em notícias de jornais para dar um start ao stop de ideias. É um exercício muito simples. Bastam uma caneta, um jornal ou uma página solta de qualquer notícia e, o mais importante, seu olhar sensível e atento. É esse gesto contemplativo que vai diferenciar o resultado da obviedade dessa prática. O importante é criar e deixar sempre o cérebro pronto para captar o que o cotidiano oferece.

Tenho um pequeno ritual. Gosto de sair cedo pelo meu bairro, comprar um jornal impresso (se não sabe o que é isso, sugiro dar um Google) e pedir um café no mesmo restaurante, todos os dias. Tenho mania de velho, como dizem. Quando abro o caderno que mais me agrada, procuro sempre seguir a ordem do texto original. A partir dessa ordem, procuro palavras que se encaixem em uma ou mais frases. Algumas ideias que não estavam naquele texto-base costumam aparecer na minha mente. Nesse momento, anoto nas margens das colunas para não perder nenhuma ideia que possa, futuramente, ser talhada.

O que vou escrever não é nenhuma novidade. Afinal, fuçar as palavras das matérias e das notícias até encontrar uma poesia ou uma frase delicada é um delicioso exercício de escrita que vem sendo praticado há décadas, séculos, desde a invenção do jornal. André Breton, um dos nomes mais importantes do Surrealismo, já brincava com palavras recortadas de jornais para fazer poemas-colagem. No Dadaísmo, podemos encontrar inúmeros exemplos de artistas que se aventuraram nessa bobagem prazerosa de roubar o que é nosso em algo que não pertence a nós. Os mais novos talvez encarem o trabalho de Austin Kleon como algo extremamente original. Para começar, não existe muito esse lance de originalidade. Tudo é um desdobramento de um epicentro original. Inovar é encontrar uma dobra desconhecida do que já existe de alguma forma, em algum momento, em algum lugar, na cabeça de algum ser criativo. Até o que você é e pensa é um desdobramento dos seus pais. Até o que você sente é um desdobramento de outras experiências amorosas. Gênios não existem. Existem pessoas que escondem suas fontes, suas referências, e se vangloriam por serem únicos, deuses, reis da criatividade e da inovação. Genialidade é conseguir encaixar seu sentimento, sua verdade, naquilo que já existe de um jeito diferente.

Mas voltando a Kleon… Ele mesmo esclarece seu processo criativo, numa palestra muito bacana no TED, chamada Roube como um artista (disponível no YouTube para quem se interessar). De forma muito sincera, assume que “roubou” sua forma de fazer poesia de outros artistas que admira ou passou a admirar. Cita Tom Phillips, que se inspirou em William Burroughs, que pegou a ideia de Brion Gysin, que pode ter visto o trabalho de Tristan Tzara, que talvez tenha ouvido falar de um cara lá do século XVIII chamado Caleb Whitford. Ou seja, ele mostra que há mais de 250 anos a humanidade busca poesia em notícias do cotidiano. Desde que existe o jornal impresso, alguém deve ter tido a ideia de procurar palavras e encontrar sentido e sentimento naquelas linhas, colunas ou manchetes. Alguns fazem desenhos em volta, outros usam marcadores pretos para apagar frases e palavras que não acrescentariam nada ao novo texto. Outros recortam as palavras e depois colam numa folha em branco. Tudo é válido para exercitar o cérebro e estar em contato com a criatividade. Fazendo isso com frequência, uma hora você vai encontrar sua originalidade, seu caminho natural. Esses exercícios são plágios temporários. Se você colocar sua história naquilo que faz, terá feito algo único, mesmo carregado de semelhanças. Sim, uma alma aberta consegue se diferenciar no corpo da mesmice.

Antes de conhecer o trabalho de Austin Kleon, eu também já brincava de modificar algumas matérias ou recortar manchetes para formar minha própria visão cotidiana. Acho que todo mundo, em algum momento, já teve essa experiência, o que não pode ser considerado plágio. Existem mais de 7 bilhões de pessoas pensando no mundo — está certo que nem todas usam o cérebro como deveriam, infelizmente. É inevitável que em algum momento — mesmo sem querer — as ideias se pareçam, mas isso não quer dizer que você roubou a ideia do outro. Dizem que Dalton Trevisan, um dos grandes nomes da nossa literatura, tem o hábito de guardar notícias de jornal para se inspirar e, a partir de seu talento, construir personagens e tramas. Moacyr Scliar publicou O imaginário cotidiano com histórias inspiradas em notícias da Folha de S.Paulo. Ou seja, o jornal é um belo ponto de partida para alcançar o porto-seguro da verdade, da poesia. Reconhecer que o que você faz não é algo totalmente seu é tão bonito… A humanidade vive para criar. Faz parte do nosso DNA colocar para fora nossas angústias, nossos medos e nossos silêncios. Tudo nasce de algo que já teve luz. O importante é assumir a paternidade das primeiras ideias e transformá-las, à sua maneira, em algo realmente seu. Desculpe dizer isso, mas você será sempre padrasto das suas ideias.

Sim, torço pelo Botafogo. Sim, leio jornal impresso. Sim, durmo religiosamente às 22h. Meus oitenta anos estão muito bem disfarçados nesse corpinho de trinta e um. Consumo o noticiário com a esperança de, um dia, o amor se tornar a manchete principal. Enquanto isso, fico aqui no Lamas, com meu café, à espera de um novo bloqueio.

 

DOEU IR

a) Para chegar a nós mesmos, certamente, devemos fugir.

b) Ele não compreende. Muitas vezes, encontro palavras de um escritor que não se limitou apenas à realidade.

c) O escritor não existe: ausência.

d) Minha função é não ter medo da liberdade.

e) O escritor deve fugir dos escritores.

f) Siga seu caminho. Isso deve bastar.

Leia mais Pedro Gabriel

[DAQUI A POUCO] – parte III

[DAQUI A POUCO] – parte III

[DAQUI A POUCO] – parte II

[DAQUI A POUCO] – parte II

[SOM PAULO]

[SOM PAULO]

Uma estrada chamada 2017

Uma estrada chamada 2017

Comentários

3 Respostas para “[O PLÁGIO TEMPORÁRIO]

  1. simplesmente perfeito, o texto inspira, e mostra como se inspirar mais ainda. Não conhecia essa idéia de ler noticias para buscar palavras e criatividade. Valeu Pedro.

  2. adorei seu texto, me lembrou uma aula que tive na faculdade, na qual o professor disse que “a inovação é um desdobramento”, também. porém as palavras técnicas que ele dizia, no fundo não diziam nada pra mim, e suas palavras repletas de sentimento finalmente me fizeram entender o significado e a importância da inovação… em um texto, aprendi muito mais do que foi discutido em várias aulas 🙂

  3. Amei este texto, concordo que originalidade hoje em dia é difícil pela riqueza e abundância de literaturas a nossa disposição. Gosto de textos verdadeiros em seu estilo e essência e isso nos basta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *