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O inferno somos nós

2 / setembro / 2015

Por Bernardo Barbosa*

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É como se estivéssemos à beira de um abismo e, sem muita noção do que estamos prestes a fazer, continuássemos seguindo adiante. A sexta extinção: Uma história não natural, livro de Elizabeth Kolbert vencedor do Prêmio Pulitzer de Não Ficção em 2015, investiga como o ser humano se firmou como “espécie daninha” na Terra a ponto de provocar uma extinção em massa — fenômeno capaz de alterar drasticamente a vida no planeta que só ocorre em intervalos de dezenas de milhões de anos. No atual ritmo, as indicações são de que caminhamos rumo ao nosso próprio extermínio.

“Não é algo que fazemos porque nossa espécie é gananciosa ou má. Acontece porque humanos são humanos. Muitas das qualidades que nos tornaram bem-sucedidos — somos espertos, criativos, móveis e colaborativos — podem ser destrutivas para a natureza”, afirmou Kolbert ao The New York Times.

Em A sexta extinção, a autora traduz em termos práticos e em linguagem acessível o que está em jogo — ou ao menos deveria estar — nas convenções mundiais sobre o clima e outros eventos do gênero. Cada capítulo parte da extinção de uma determinada espécie para exemplificar as consequências da interferência humana (caça predatória, desmatamento, mudança climática etc.) e revelar como conseguimos subjugar, intencionalmente ou não, todas as outras formas de vida da Terra. Ao mesmo tempo, mostra que o ser humano é capaz de esforços inimagináveis pela preservação de outras espécies que não a sua. É o caso, por exemplo, da cientista do zoológico de San Diego que se dedica a tentar fazer com que o corvo-do-havaí Kinohi ejacule e seu esperma seja usado para inseminar fêmeas também mantidas em cativeiro (a espécie está extinta na natureza e sobrevive com cerca de cem exemplares em centros de pesquisa).

A sexta extinção - CAPA E LOMBADA.inddKolbert rodou o mundo para colher casos concretos do que o homem fez e faz de bom e de mau. O extraordinário esforço de reportagem (ela fez carreira na redação do jornal The New York Times e hoje integra a equipe da revista The New Yorker) rendeu o prêmio Pulitzer, e ninguém menos que Barack Obama resolveu incluir o livro em sua lista de leituras de férias. Do presidente americano aos meros mortais, qualquer leitor de A sexta extinção poderá aprender sobre diversas vertentes do vandalismo humano: desde o extermínio do arau-gigante, um pássaro gigante que não voava e virou fonte fácil de alimento no Atlântico Norte, entre os séculos XVI e XIX; passando pela contaminação fatal de diversas espécies de anfíbios ao redor do mundo por um fungo que pegou carona em grandes deslocamentos humanos; até chegar à acidificação dos oceanos que está acabando com a Grande Barreira de Corais, cuja existência poderá se resumir a “bancos de pedra em erosão acelerada” já em 2050, segundo um artigo científico publicado pela revista Nature e citado no livro.

E, no entanto, Kolbert ressalta como até algumas centenas de anos atrás parecia que o homem mal sequer acreditava no conceito de extinção; a ideia aparece entre o fim do século XVIII e o começo do XIX com os estudos do naturalista Georges Cuvier. A possibilidade de uma extinção em massa causada ou acelerada por um agente externo — uma grande catástrofe ou uma “espécie daninha” — ainda demoraria muito para ser aceita. Só no começo da década de 1990 se pôde comprovar que a quinta extinção em massa — a que varreu, entre outras espécies, os dinossauros há cerca de 66 milhões de anos — ocorreu após a queda de um asteroide. Se não temos o mesmo impacto imediato da queda de um corpo extraterrestre, o que estamos fazendo não fica nada longe se levarmos em conta a escala de tempo do planeta, medida em milhões de anos.

“Eles (os outros seres vivos) não estavam prontos para nós”, disse E. O. Wilson, renomado biólogo americano e um dos principais estudiosos da ação humana na Terra, em entrevista a Kolbert anterior à publicação de A sexta extinção. “Em outras palavras, somos únicos enquanto destruidores. Em escala global, nunca houve nada como o ser humano”, acrescentou.

De fato, até onde se sabe, não há trajetória no planeta comparável à nossa. O ser humano começou a transformar o ambiente para valer há mais ou menos dez mil anos, quando dominamos a agricultura e deixamos de ser nômades. Kolbert descreve como nos espalhamos pelo mundo em velocidade admirável, nos adaptando a praticamente todo tipo de variação ambiental e carregando conosco inúmeros invasores. Junte isso ao fato de que, de acordo com dados da ONU e do governo americano, desde o começo do século XX a população humana se multiplicou por quatro e nossa expectativa de vida dobrou. Para a natureza, essa conta está cada vez mais longe de fechar.

Somos a única espécie que tem consciência dos caminhos que pode seguir e depende basicamente das próprias escolhas. Somos a espécie responsável pela sexta extinção e, ao mesmo tempo, a única que pode tentar interrompê-la. Em entrevista à National Geographic, Kolbert resumiu:

“A história de Kinohi aparentemente reúne todas as qualidades do ser humano que, de alguma forma, são o assunto do livro. É sobre a incrível inteligência e preocupação das pessoas, de seus esforços heroicos para salvar partes do mundo natural — e ao mesmo tempo ele persiste com ataques cada vez maiores.”

link-externoLeia um trecho de A sexta extinção: uma história não natural

Bernardo Barbosa é jornalista, ser humano e, por isso, teme as retaliações do mundo natural. Trabalhou no jornal O Globo e na agência de notícias EFE.

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