Leticia Wierzchowski

O amor tem de suportar decepção

9 / setembro / 2015

Via Courseimage

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Amor é uma coisa complexa. Não me refiro apenas ao amor carnal, ao relacionamento a dois. Refiro-me ao amor num sentido mais amplo, esse amor que nos completa, que nos habita, distribuído entre amigos, pais, filhos, companheiros — entre todas as pessoas que são importantes de verdade para nós.

O amor nasce e morre de muitas formas. Acho que o amor filial é o mais forte que existe — por mais doido, cruel ou ingrato que seja um filho, o amor não morre nunca no coração dos pais. Murcha, fenece, congela. Mas não morre. Já outros amores… Bem, todos são passíveis de acabar de uma hora para outra. Casamentos que terminam numa noite, amizades que se extinguem no vácuo dos anos — amores morrem todos os dias por aí, às pencas, silenciosa ou furiosamente.

Para sobreviver, o amor tem de suportar a decepção. Amor não é idolatria, não é ilusão. Amor é um dia depois do outro, é rocha escarpada pelo mar — duas criaturas que se completam, se invadem e se redesenham. Os verdadeiros amores, que permanecem conosco e nos transformam ao longo da vida, partem da premissa dessa erosão. Sim, o amor erode. Ele cava fundo, um pouquinho por vez. E os buracos que faz devem e precisam ser vistos com afeto, respeito, carinho e perdão. Claro que nem sempre dá — nesses casos: adeus, amor. Mas os amores que perduram, que contam de nós, que valem — os nomes que nossa alma sopra no silêncio da noite, no quarto do hospital, entre as contas do rosário ou quando jogamos flores ao mar —, esses são erguidos sobre o templo da decepção e do perdão.

Não existe amor verdadeiro que nunca tenha respirado fundo diante do erro do seu objeto amoroso. Pais e filhos, irmãos, companheiros de vida, amigos — todos perdoam-se diariamente e viram o rosto para o lado quando o outro diz uma bobagem, ficam rubros pela tolice do outro, enraivecidos pela teimosia do outro, magoados pelo orgulho do outro, feridos pela incapacidade do outro… E depois respiram, ajeitam as pedras no saco, entregam-se às águas da decepção e seguem em frente. Porque poucos sentimentos se regeneram tão profundamente quanto o amor — essa mágica que nos ampara em tantas instâncias da vida.

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