Bastidores

Notas sobre o mercado editorial e a extinção em massa

9 / setembro / 2015

Por Pedro Staite*

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Há algumas certezas para quem ganha a vida como editor assistente.

A primeira é passar pelo aparente desgosto de ver a sociedade, em específico a sua família, nunca acertar o nome da sua profissão. Minha mãe, por exemplo, já me chamou de jornalista, produtor, analista, revisor e produtor (a cada cinco ocasiões, duas são “produtor”). Se eu falar “Oi, mãe, sou editor assistente do setor de não ficção” ou “Oi, mãe”, dá no mesmo — ela responde “Oi”.

Outra é que a produção editorial, embora mexa com o mundo glamoroso dos livros, na prática alcança mais ou menos o mesmo glamour de uma reunião de condomínio. É quase como trabalhar em contabilidade, só que com letras. No entanto, pode ser bem divertido, mesmo sabendo que nunca vai existir alguma organização legal tipo Editores Assistentes sem Fronteiras.

Outra certeza é a de que nem sempre será possível trabalhar com livros cujos assuntos você domina. Para mim é ótimo, porque não domino quase nenhum (talvez só turfe, Beatles e MMA). Há algum tempo, comecei meu vínculo com a Intrínseca trabalhando em uma obra que trazia alguns temas nos quais sou um santo ignorante: ecologia, paleontologia, química e uma borrifada de matemática. “Que bom, a data de fechamento do livro passa do período de experiência”, pensei, amedrontado, ao receber da Carol Leocadio, minha subeditora, a incumbência de preparar o texto de A sexta extinção.

A sexta extinção - CAPA E LOMBADA.inddA ideia de começar num emprego novo com um livro desse tipo era pavorosa, mesmo sabendo que a obra pode ser de um assunto complexo mas de fácil explanação (Thomas Piketty não me deixa mentir). Graças aos astros alinhados de maneira favorável ou às divindades reservadas à produção editorial, A sexta extinção é acessível, cheio de curiosidades e muito engenhoso.

A autora, Elizabeth Kolbert, explica o que foram as cinco grandes extinções, eventos em que a biodiversidade caiu de maneira violenta nos últimos quinhentos milhões de anos. Todo mundo conhece a extinção mais famosa: a do asteroide que matou Fran, Charlene, Bob, Dino e Baby. Estamos vivendo a sexta extinção, que, por outro lado, tem sido causada por um elemento mais prosaico que um asteroide: nós! Sim, se você fica aflito por não fazer parte de algo realmente grandioso, agora tem o consolo de compor um grupo que está destruindo a vida no planeta. É um grande feito, vai.

Enquanto preparava o texto do livro, colhi algumas informações que podem ajudar você na excelente leitura de A sexta extinção.

 

Toque 1 ― Se quiser destruir rápido alguma coisa, chame a espécie humana

Se a história inteira da Terra fosse representada em apenas um dia, o homem mais “evoluído” só daria o ar da graça às 23h59min56s. Passaria os momentos seguintes sem fazer muita besteira e começaria a corroer o planeta exponencialmente nos últimos milésimos. Ou seja, a humanidade partilha com o planeta uma fração ridícula da história e já é mais do que suficiente para acidificar os oceanos, entupir a atmosfera de carbono, dizimar uma quantidade absurda de espécies e passar o rodo nas florestas. O Homo sapiens pode não se reproduzir tão rápido quanto um coelho nem ser tão adaptável quanto uma bactéria, mas é o Campeão Mundial de Destruição.

 

Toque 2 ― O sapo não é o marido da rã

Sapos e rãs são bichos diferentes. Na minha abençoada ignorância, rã era apenas o feminino de sapo e uma boa solução para fazer 10 pontos na categoria “animal” na adedanha escrita, pois as pessoas sempre colocam “rato” ou “rinoceronte”. Mas não. Rãs e sapos não são apenas de espécies e gêneros diferentes, mas de famílias diferentes. Na letra fria da taxonomia, eu sou mais próximo de um chimpanzé do que uma rã é de um sapo.

 

Toque 3 ― Você vai ter pena de bichos improváveis como sapos, morcegos e araus-gigantes

Todas as pessoas que trataram do texto comigo, como a Carol Leocadio, que avaliou a primeira revisão, e o Ulisses Teixeira, que avaliou a segunda, me disseram em algum momento “Tadinho do sapo/morcego/arau-gigante” (esse último, tadinho mesmo, já está extinto, mas não vou dizer como, é tocante demais). Uma das revisoras, Rayssa Galvão, me mandava mensagens de solidariedade aos bichinhos e de ódio aos seres humanos quase todo dia. Se a Isabela Freitas não tivesse lançado Não se apega, não com a gente, teríamos um título quase tão apropriado quanto A sexta extinção. Na passagem sobre o fim de uma população de morcegos, cheguei a sentir dor na alma.

Você pode se considerar a pessoa mais leiga do seu bairro, mas garanto que vai aprender muito com A sexta extinção. Vai ter pena dos bichos e vergonha dos humanos na mesma medida. Vai se afeiçoar por corais e mamutes (RIP). Vai querer adotar um morceguinho. Vai, ao menos discretamente, perpetuar um pouco menos o banzé no oeste que estamos fazendo aqui. E isso já não seria ótimo?

link-externoLeia também: O inferno somos nós

 

 

Pedro Staite, 28 anos, é editor assistente no setor de não ficção da Intrínseca e desenvolveu uma relação toda especial com a rã-dourada-do-panamá (que Deus a tenha).

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Comentários

5 Respostas para “Notas sobre o mercado editorial e a extinção em massa

  1. Texto ótimo como sempre, Mr. Staite! Deu vontade de ler o livro 😉
    Sigamos nessa profissão louca, mas prazerosa de editor 😀
    Abração

  2. Nossa Pedro, você realmente conseguiu chamar a minha atenção para esse livro. Amo biologia e paleontologia, e estava receosa de ser algo muito técnico para eu compreender. Mas se você se saiu bem nessa, acho que tem tudo para eu gostar. Só uma pena que estejamos enfrentando mais um período tão crítico para o planeta e a humanidade. Livros como esse deveriam ser de leitura obrigatória para servir como alerta para o que as pessoas estão fazendo. Beijos, Mi – Recanto da Mi

  3. Ótimo texto realmente me interessei pelo livro estou no segundo ano do ensino médio e pretendo ser uma editora futuramente gostaria de tirar algumas dúvidas sobre os processos de produção de um livro se puder entrar em contato agradeço profundamente

  4. Olá, Pedro!

    Super interessante seu texto, Pedro Staite.
    Pessoas como você que traz este conteúdo singular, enrique nossos olhos ao ler e nos faz acreditar no poder da palavra!

    Abraços!

  5. Olá! Gostei muito do seu texto. Tenho interesse em trabalhar também na área de livros, e gostaria de saber o que as atividades de um editor e o que fazer para conseguir ser um. Desde já, muito obrigada!

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