Clóvis Bulcão

No tempo dos cassinos

28 / setembro / 2015

O Cassino da Urca, em 1941 (Foto de Hart Preston/Time&Life Pictures)

De forma inesperada, a discussão sobre a volta dos jogos de azar foi retomada. Apesar de proibido no Brasil, o jogo come solto. Milhões de brasileiros apostam nos jogos bancados pelo Estado, através da Caixa Econômica Federal, e um número menor faz sua fezinha nas bancas dos bicheiros. Já os cassinos e bingos são ilegais. Os cassinos foram fechados na década de 1940, e os bingos, mais recentemente, em 2006.

Por incrível que pareça, os cassinos deixaram um legado. Assim que Getulio Vargas liberou os jogos de azar, nos anos de 1930, o Copacabana Palace começou a funcionar. Seu cassino era luxuoso e acabou se transformando em padrão nacional. Em São Paulo e Minas Gerais surgiram outras casas que buscavam copiar seu requinte.

Aqui no Rio de Janeiro foi construído também o Cassino da Urca. Debruçado sobre a charmosa enseada de Botafogo, era uma casa sofisticada, artisticamente falando. Em seu palco havia até elevador para as orquestras, e, enquanto uma descia e outra subia, cumpria-se a máxima de que o show não pode parar. Foi nesse palco que uma das maiores cantoras de todos os tempos se consagrou — Carmen Miranda, a Pequena Notável.

O cassino do Copa não era administrado pelo dono do hotel, Octávio Guinle. Por questões religiosas ele arrendara a sua administração a terceiros, mas exigia do concessionário um alto padrão de conduta. Só os preços praticados nas salas de jogo e a exigência do uso de vestimentas quase que de gala já restringiam clientela à elite econômica e política do país.

Outro dia, o escritor Ruy Castro me contou que o fechamento do cassino do Copa, em 1946, teve um impacto muito maior do que se imagina na vida noturna do Rio de Janeiro e, principalmente, no desenvolvimento da música popular brasileira. Ele está até escrevendo um livro sobre isso.

Não conheço muitos cassinos nem curto jogos. Por curiosidade, já entrei no famoso Cassino de Monte Carlo, em Mônaco. Um luxo só! Mas se de fato os cassinos voltarem, qual seria o modelo? Não tenho dúvida de que não seria o do Copa. Penso que as casas de apostas seguiriam, hoje, o padrão popular das casas de bingo: as portas abertas a qualquer classe social e uma estética de gosto duvidoso.

Os cassinos do século XXI se inspiram, em geral, na estética de Las Vegas (EUA), com luzes piscando, barulho de moedas caindo e gente vestida com camisas de time de futebol, bermuda e chinelo. Caso os cassinos sejam reabertos no Brasil, não consigo imaginar uma retomada da atmosfera requintada das décadas de 1930 e 40, e muito menos que em algum deles voltem a brilhar novas Pequenas Notáveis.

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